William Waack perdeu a chance de mostrar que aprendeu algo com o próprio erro. Por Joaquim de Carvalho

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O artigo de William Waack publicado hoje pela Folha de S. Paulo não foi, propriamente, uma defesa. Foi um ataque.

Demitido da Globo, rejeitado pelo SBT, ele transfere a responsabilidade pelo seu infortúnio à militância na internet.

“O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada ‘mídia tradicional’ são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos “fatos objetivos”, da “verdade dos fatos” (a expressão vem do termo em inglês “gatekeepers”). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.”

William não deu nomes, mas pode estar falando dos sites independentes, como o DCM, que tem se contraposto à velha mídia, com artigos e coberturas que partem de pontos de vista muito diferentes, às vezes opostos.

Sem citar nomes, William critica seus antigos empregadores por não enfrentarem esses “grupos organizados”.

“Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que “donos” de outras agendas políticas definem como “correto”.

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da “mídia tradicional” se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.”

É exatamente disso que se trata: a contribuição da mídia para perpetuação da miséria e da ignorância no país.

Faz muito tempo que notícia deixou de ser o principal negócio do que ele chama de mídia tradicional.

Mas William não reconhece. Ou finge não reconhecer.

E segue no ataque a quem, em síntese, o demitiu:

“Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.”

William exibe suas credenciais — viveu fora do Brasil como correspondente internacional — para dizer que os “canalhas do linchamento” querem tirar uma característica do povo brasileiro, a irreverência.

Será que ele acha que foi engraçado com seu comentário racista?

“Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento querem nos tirar.”

E não consegue evitar a soberba:

“Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades –nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.”

William parece querer dizer que tem algo a ensinar à patuleia.

Será que entendi corretamente?

Paulo Sotero, o jornalista a quem William dirige seu comentário, ficou visivelmente constrangido.

Teve uma reação que não é de riso nem de concordância. Mas de estupefação.

William já progrediu ao admitir que fez a piada racista, mas está longe de um gesto da auto-crítica.

Faço essa análise com tristeza, porque trabalhei com William Waack na revista Veja.

É um bom jornalista. Íntegro na reportagem.

Fizemos juntos uma das primeiras reportagens que escancaravam o submundo das empreiteiras — a capa “Por dentro da mala preta da OAS”.

Tenho para mim que William se deixou seduzir pelo ambiente da televisão e a vida enganosa que salários estratosféricos proporcionam.

Comprou um avião e, às vezes, viaja sozinho para o interior de São Paulo.

Já usou a pista de pouso da fazenda de outro jornalista que foi da Globo.

William perdeu contato com a realidade do povo brasileiro e, para um jornalista, isso é mortal.

Vai demorar para aterrisar.

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