Vamos importar Ricardo Darín

 

Ricardo Darín participou de uma entrevista com o apresentador Alejandro Fantino, do programa “Animales Sueltos”, da Argentina. É um bate-papo numa bancada. Darín, há algum tempo o maior ator do país, deu alguns sustos em Fantino. O vídeo se tornou viral (inclusive com uma menção fictícia a Quentin Tarantino). A certa altura, lhe foi perguntado se não gostaria de fazer carreira em Hollywood.

“Eu não perco o sono ou enlouqueço com isso, pode ter a ver com a idade. Fui muito criticado porque disse que não queria ir ao Oscar. O que você acha que acontece lá? Eu já fui, eu já vi e estou feliz de estar aqui”.

Também contou do convite — recusado — para trabalhar num longa de Tony Scott.

“O produtor me respondeu que não aceitava ‘não’ como resposta. Era para o filme  “Man on Fire”, com Denzel Washington. Me ofereceram o papel de um traficante mexicano. A primeira coisa que me incomodou foi que procurassem latinos para fazer papel de traficantes em um dos países com maior tráfico de drogas no mundo [os EUA]. Além do mais, eu tinha trabalhado na Espanha, no teatro. Estava há seis meses longe de casa.”

Fantino começou a elencar as coisas que estava perdendo: casa em Los Angeles, jato particular, praia em Santa Monica etc.

“Para quê? Melhor do que eu vivo? Eu tomo dois banhos de água quente por dia. A ambição pode levar você a um lugar muito escuro. Eu tenho um carro caro que me dá muito trabalho. Fico feliz quando eu pego o carro do meu filho. Eu sempre encontrei uma mão amiga quando precisava. Tenho muito mais do que preciso. Sou um privilegiado”.

Darín é um ator brilhante. Em 2009, o thriller “O Segredo de Seus Olhos”, em que fez o protagonista Benjamin Esposito, levou o Oscar de filme estrangeiro. Seu papel como um dos golpistas de “Nove Rainhas” é inesquecível. A atuação em “O Filho da Noiva” é tocante.

Mora há anos na mesma casa, no bairro portenho de Palermo. Participou de uma campanha do Greenpeace para impedir a construção de uma usina na Patagônia. Fumou cigarros a vida inteira e admitiu que fumou muita maconha, o que causou barulho. “Ninguém atacas as drogas legais porque existem muitos negócios por trás delas”, disse.

Não é a apenas a falta de afetação e a capacidade de articulação que chamam a atenção. Sua persona pública não tem a auto-importância e a falsa solenidade que  costuma sobrar em muitos de seus colegas brasileiros, especialmente os que convocam manifestações e não aparecem.

O ativismo de Darín está mais ligado ao exemplo do que à falação. Ao invés de detonar Hollywood com clichês, ele conta o que aconteceu com ele lá. Ao invés de criticar o “sistema”, descreve sua relação com seu carro importado e o desconforto que sente com a pobreza à sua volta.

Uma amiga diz que, se o Brasil não fosse tão argentinofóbico, seria o caso de importa-lo. Mas para fazer o quê? Uma novela? Uma comédia da Globofilmes? Melhor deixá-lo na Argentina, onde ele é mais útil.

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