Uma viagem pelo Rio de 1882 pelos olhos de um inglês

O Rio na década de 1880

 

E então dou com um livro na biblioteca digital do British Museum que me chama, imediatamente, a atenção.

O nome é Businness and Pleasure in Brazil, Negócios e Diversão no Brasil. O autor, o inglês U.R. Burke, compilou as cartas que escreveu para a mulher ao longo de uma temporada no Brasil, em 1882. A maior parte do tempo de Burke no Brasil foi passada na capital Rio de Janeiro, e ele misturou negócios com turismo.

É um retrato fascinante, ainda que pouco lisonjeiro, de um país às vésperas de grandes transformações. Pouco tempo depois da passagem de Burke pelo Brasil, ainda na década de 1880, a escravidão seria abolida e a república declarada.

Eram tempos de Machado de Assis, cuja dificuldade em sobreviver como escritor pode ser avaliada numa carta em que Burke lamenta a falta absurda de livrarias no Rio. E de quase tudo, aliás. Ele disse à mulher que simplesmente não tinha como gastar dinheiro. O Rio, em matéria de atrações para um viajante se divertir, era uma nulidade, segundo Burke.

O Brasil era uma terra sem perspectivas, na visão dele, povoado por (poucos) ricos sem cultura e (muitos) pobres sem energia, e sem arte, sem manufatura e sem espírito militar ou industrial. Os brasileiros pareciam ter nascido com o “direito divino” de não fazer nada. Em 1882 o Brasil era um “país jovem com sinais de decrepitude prematura”.

Burke conta que viu menos negros no Rio do que imaginava. Mas algumas coisas relativas à escravidão ficaram marcadas nele. Numa carta, ele reproduz um anúncio do Diário de Notícias em que é comunicada a fuga de um escravo “de 25 ou 26 anos” de boa saúde. Quem desse pistas seria recompensado.

Mas a cena que mais o impressionou, neste campo, foi a de um mendigo cego que tinha um escravo que o guiava pelas ruas estreitas e caóticas do Rio. Não havia consulados e muito menos embaixadas então na capital brasileira. Os diplomatas ficavam em hotéis. Eram precários, segundo Burke. Ele ficou no melhor deles, e afirmou que era inacreditavelmente ruim.

Os funcionários públicos — colocados em sinecuras por políticos interessados em seus votos — podiam fazer coisas incríveis. Burke narra o caso de um amigo inglês que tinha um encontro marcado com um deles. O funcionário enviou um representante à reunião, junto com uma carta em que dizia o seguinte: “Estou bêbado. Mando por isso uma pessoa em meu lugar. Atenciosamente, X.”

A melhor recordação de Burke foi o Visconde de Barbacena, que ele conheceu pessoalmente. Barbacena, então com 80 anos, tinha sido diplomata em Londres, e era casado com uma inglesa. Numa conversa, Barbacena contou a Burke que esteve presente à coroação do rei inglês Jorge IV, e que viu muitos convidados surrupiarem garfos, facas e colheres para guardar como lembranças da festa real.

Também Petrópolis o impressionou positivamente por ser limpa e organizada, ao contrário do Rio. Ele atribuiu isso ao fato de Petrópolis ter sido fundada por imigrantes alemães.

Alguns hábitos dos brasileiros incomodavam Burke: cuspir abertamente nas ruas. (Num livro sobre sua primeira viagem aos Estados Unidos, Dickens assinalou a mesma coisa: achou repulsivas as cusparadas americanas.) Sequer as mulheres o comoveram. “As brasileiras não são bonitas”, escreveu ele.

Nas cartas de Burke você vê não apenas o Brasil do final do século XIX – mas também o espírito inglês. Ele afirma que o Brasil estaria numa situação muito melhor se tivesse sido colonizado pela Inglaterra, e não Portugal.

Bem, eis uma afirmação que o tempo coloca sob intensa suspeição.

Da Índia à Jamaica, da Nigéria ao Afeganistão, não são tão inspiradoras assim as contribuições do império britânico às terras colonizadas.

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