Uma quase defesa de ‘O Lobo de Wall Street’

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Não considerando a inflação das arrecadações antigas, ‘O Lobo de Wall Street’ é a maior bilheteria da carreira de Martin Scorsese – segundo o Hollywood Reporter, recentemente ultrapassou a marca de 300 milhões de dólares em ingressos vendidos. Não que dinheiro importe pra esse artigo. ‘O Lobo…’ também foi indicado nas cinco das principais categorias do Oscar (ator coadjuvante, ator, diretor, roteiro adaptado e filme) além de levar o Globo de Ouro de melhor ator e acumular indicações ao Bafta, aos prêmios dos sindicatos americanos dos roteiristas, produtores e diretores, e por aí vai. Não que prêmios importem para este artigo. O ponto aqui é: até onde vai a responsabilidade do(s) autor(es) com as consequências da obra de arte no mundo real?

Este filme gera reações polarizadas e muita controvérsia. Scorsese retrata – com todos os excessos do modo de vida do retratado – a trajetória de Jordan Belfort, corretor de Wall Street que ascendeu nos anos 90 com um esquema fraudulento, montou uma companhia gigantesca e, eventualmente, acabou pego. E para contar esta história utiliza como protagonista um dos atores mais carismáticos do cinema americano (Leonardo DiCaprio, também produtor do filme e idealizador do projeto). ‘O Lobo…’ é uma montanha russa de sexo, drogas e dinheiro. Nada que Scorsese não tenha feito antes em filmes como ‘Os Bons Companheiros’ e ‘Casino’. De fato, aqui, é como se estivesse apresentando mais um de seus contos mafiosos – talvez com mais sexo, mais drogas e mais dinheiro. Mas os criminosos agora lidam com ações na bolsa de valores. Scorsese e DiCaprio foram criticados por supostamente glamourizar o modo de vida de um golpista que enriqueceu às custas das economias de americanos – em sua maioria – de classe baixa. Após uma das exibições para votantes do Oscar, um roteirista teria gritado na cara de Scorsese que aquilo era ‘nojento e vergonhoso’.

Christina McDowell é filha de um dos antigos sócios de Belfort. Em uma carta aberta publicada no Los Angeles Times, ela conta que chegou a ter de trocar de nome depois de ter sua identidade roubada pelo pai para fazer uma manobra financeira. Christina se endereça ao próprio Jordan, questionando sua nova persona, e acusa os realizadores do filme de glorificarem o comportamento de Belfort e seus companheiros, chamando diretamente a atenção de Scorsese e DiCaprio para o valor da mensagem cultural enviada no projeto.

– Eu queria fazer um filme feroz. O que me levou a fazer esse filme foi o colapso de 2008 e a vontade de retratar o mundo financeiro sem lei – declarou o diretor de 71 anos à Vanity Fair.

Leonardo DiCaprio adota um discurso semelhante em entrevista ao New York Times:

– O que não entenderam é que a razão para fazermos esse filme foi a reação a essas pessoas e a esse mundo. Por isso queríamos fazer o filme, em primeiro lugar.

De fato Scorsese filma como se tudo fosse uma grande festa e cria um mundo atraente. Mas escolha semelhante já não havia sido feita nos já citados ‘Os Bons Companheiros’ e ‘Casino’? E não serão esses (sub)mundos realmente atraentes? Isso é o que alegam Scorsese e DiCaprio, que é justamente essa a intenção, mostrar este universo por dentro. Em diversas entrevistas os dois afirmam que não endossam o comportamento de Belfort e que isso está no filme. Trata-se de um personagem carismático, ou não seria capaz de levar a audiência por uma jornada de três horas de duração sem nos fazer perder o interesse por sua história, mas é um homem de caráter desprezível, ambição desenfreada, egocêntrico ao extremo, dotado de zero senso de culpa ou responsabilidade por seus atos e com traços de psicopatia. E quantos desses não são tipos interessantes de se ver nas telas? Hannibal Lecter, Walter White, Coringa.

O fato de Belfort ser um personagem real e tudo que se passa na tela ter realmente acontecido traz à análise do filme uma maior complexidade. Scorsese e o roteirista Terence Winter deixam de fora as vítimas de Jordan, que só surgem em voz na outra linha do telefone e são mencionadas com desprezo pelos personagens principais. DiCaprio defende-se:

– O que queríamos fazer era mergulhar você na mente de alguém. É um reflexo da verdade. Não acho que eles pensavam nas vítimas. E não acho que os mais corruptos de Wall Street tenham pagado por seus erros ou tido punição apropriada. Então sempre que pensávamos em uma abordagem mais tradicional dizíamos ‘Não, não, vamos ainda mais longe porque é uma representação precisa de como é o mundo deles’ – declarou o ator, ao NY Times.

Como aceitou colaborar com o governo – leia-se delatar seus associados – Jordan ficou na cadeia por 22 meses e foi condenado a restituir 110 milhões de dólares às suas mais de 1500 vítimas. Em outubro do ano passado, promotores federais prestaram queixa de que nos últimos quatro anos o sujeito só teria contribuído com 243 mil para quitar a dívida. E Belfort recebeu cerca de U$1,8 milhões pela publicação de seus dois livros e venda dos direitos de adaptação para o cinema, além de cobrar 24 mil dólares por palestras motivacionais desde 2007 – ele inclusive faz uma ponta no fim do filme, apresentando o Belfort de DiCaprio. Talvez indo de encontro ao que de fato seja sua opinião sobre o verdadeiro ‘lobo’, o ator gravou um vídeo em que defende a brutal sinceridade que Belfort usa para trata de sua própria história e termina dizendo que o considera realmente um brilhante motivador. De fato, Belfort só tem a lucrar com sua história adaptada ao cinema. Sua fama agora foi inflacionada mundialmente e sabemos que hoje em dia, celebridades não precisam passar perto de serem exemplos admiráveis para serem célebres. E apesar de ser um personagem desprezível, no mundo das palestras motivacionais seu cachê certamente está mais valorizado enquanto suas vítimas não sabem quando ele pagará a elas o que deve.

Mas a questão é: Scorsese e DiCaprio tem culpa nisso? ‘O Lobo…’ é um sucesso entre jovens banqueiros. Um artigo do London Evening Standard afirma que o lançamento do filme foi tão esperado entre os funcionários dos bancos de investimentos que as empresas promoveram festas a caráter (tema: anos 90) e sessões privadas. O Business Insider publicou um relato sobre como foi assistir ao filme com jovens profissionais de Wall Street. E resumiu tudo em uma palavra: perturbador:

– Há uma linha tênue entre satirizar Wall Street e celebrar o estilo de vida de Belfort. Scorsese poderia ter se esforçado mais para fazer o personagem parecer um vilão. Seria uma pena se, com esse filme, o diretor acidentalmente inspirasse os futuros Jordan Belforts do mundo – escreve o repórter, destacando que a cada carreira de cocaína cheirada pelos personagens o público ia ao delírio.

Lembro-me da estreia de ‘Tropa de Elite’ e toda a controvérsia em torno do filme de José Padilha e do personagem Capitão Nascimento (Wagner Moura). O papel central de Nascimento, que conduz a narrativa através da sua percepção, as cenas violentas e os relatos de que plateias aplaudiam as sequências de tortura praticada por policiais incorruptíveis do BOPE despertaram acusações de que ‘Tropa…’ seria um filme fascista. Trata-se de uma situação similar a de ‘O Lobo…’. Tanto Padilha na direção e roteiro quanto Wagner Moura na interpretação retratam um personagem obscuro, autoritário, violento e à beira de um ataque de nervos, praticamente um sociopata a serviço da lei. O fato de Nascimento ser adotado como herói talvez tenha mais a ver com a sociedade do que de fato com a obra. Como bem dito pelo crítico Pablo Villaça em sua análise ‘em vez de se encarregar de condenar o personagem para o espectador, Scorsese permite que constatemos sozinhos a natureza de Belfort. Sim, com isso, ele inevitavelmente levará muitos a saírem do cinema repletos de admiração pelo que o protagonista conquistou – mas não podemos responsabilizar o diretor pela falha de caráter de certos membros de sua plateia, podemos?’.

Há quem diga que Belfort será o herói que Gordon Gekko (personagem de Michael Douglas em ‘Wall Street – Poder e Cobiça’) foi para geração anterior. Há quem defenda que é o melhor filme de Martin Scorsese nos últimos 20 anos e a maior performance da vida de Leonardo DiCaprio. Há quem diga que ‘O Lobo…’ é um infeliz festival de excessos. E pouco se fala no trabalho de Kyle Chandler, que interpreta o agente federal responsável por perseguir e prender Jordan Belfort. O agente vai pra casa de metrô, vestindo seu terno barato, sem sequer sorrir com o dever cumprido, sem glória. No mundo real, Jordan Belfort está livre, ganhando dinheiro e sem restituir suas vítimas. É possível dizer que ele venceu? Talvez, mas a culpa não é de Scorsese ou de DiCaprio.

E ainda que você discorde de tudo isso, ‘O Lobo de Wall Street’ levanta todas essas questões, proporciona múltiplas análises, gera diversas e controversas opiniões. Só por isso já não será uma obra de arte singular?

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