Um retrato da falta d’água em São Paulo no trecho mais importante do Sistema Cantareira

 

 

Visitar a região que abriga o emaranhado de serras, córregos, rios, represas e dutos que formam o Sistema Cantareira costumava ser prazeroso.

Para o principiante, o território ainda remete a um ambiente de “lua de mel” típico dos anos 70, com o tradicional festival do morango e o clima ameno que aproximava ainda mais os recém-casados.

Mas a realidade encontrada por mim e pela fotógrafa Bia Parreiras, autora deste ensaio, demonstra um verdadeiro divórcio entre o passado e os dias de hoje.

Nosso roteiro se deu a partir da Estação de Tratamento de Guarau, Estrada da Roseira, em direção a Mairiporã. Em seguida rumamos pela Fernão Dias, rumo a Atibaia e, por fim, até o município de Piracaia.

É o trecho mais importante do Cantareira.

O uso e ocupação do solo da região de Mairiporã, Atibaia e Piracaia é avesso à produção hídrica. Sem controle do fenômeno da urbanização, não é difícil encontrar lojas de materiais de construção em plena Serra da Cantareira. Também é notória a migração da indústria para este conjunto de municípios.

O encanto do ambiente bucólico vai se desmontando a cada quilômetro rodado.

De condomínios de luxo às ocupações irregulares das periferias, tudo contribui para redução de vegetação e da produção de água.

Montanhas desprovidas de qualquer tipo de vegetação são predominantes na paisagem da Represa de Piracaia.

A obra dessa represa começou 1966. Em 1974, ela atingiu sua capacidade máxima com a contribuição dos rios Cachoeira, Atibainha e Jaguari, chegando a 11 mil litros por segundo. Estava formada parte importante a nordeste do Sistema Cantareira.

O cenário 40 anos depois é trágico. Além de elevações cobertas apenas por vegetação rasteira, as nascentes estão desprovidas de matas. O que mais se vê são plásticos, pneus, sucatas e toda sorte de resíduos.

O assoreamento é fenômeno presente e fator decisivo na perda da capacidade do Sistema. Adentramos na represa Piracaia seis metros abaixo do seu leito natural. Onde havia água, hoje pasta o gado. Durante todo o dia de nossa incursão não presenciamos agentes de fiscalização da CETESB ou alguma patrulha da Polícia Ambiental.

Apenas um casal de pescadores que tentavam a sorte cada vez mais escassa. Era um dia de chuva, o que torna a situação mais dramática. O retrato de um abandono que explica a crise de falta d’água pela qual pena hoje o paulista.

 

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