Tribunal da internet tira de Fabiana Cozza a honra merecida de interpretar dona Ivone Lara no teatro. Por Evandro Fióti

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO MEDIUM

Confesso que fui pego completamente de surpresa pela polêmica que envolveu a escolha de Fabiana Cozza para representar no teatro a grandiosidade da Diva Dona Ivone Lara. Foi na última quinta-feira a noite através de um post no facebook que soube que Fabiana estava sendo questionada, atacada e até boicotada. Fabiana não é negra de pele retinta como era Dona Ivone Lara, e por isso não esta a altura para representa-la no musical, mesmo tendo sido indicada pela nora de Dona Ivone para compor o elenco.

As críticas fazem sentido embora em tons desmedidos sem levar em consideração a artista que estamos atacando. Fabiana é negra (SIM!!!!), é uma divulgadora da cultura afro-brasileira, e como ela mesmo disse em texto no seu perfil do instagram: “Dormi negra e acordei branca”. Foi nisso que muitos textões do facebook transformaram toda a sua trajetória. Há quem diga que não, mas foi o que prevaleceu, infelizmente, porque perdemos completamente o sentido do que é criar ponte e dialogar com o próximo.

Houve quem a chamou de desonesta, uma farsa, hipócrita, aproveitadora e daí pra baixo…

Vocês ja pararam pra pensar que ninguém nasce pronto nem está 100% desconstruído? Em algum momento analisaram que os preconceitos sofridos por Dona Ivone Lara são em parte considerável os mesmos que também atingem diretamente a Fabiana? Se colocaram também no lugar de Fabiana do quão difícil é tomar uma decisão como essa? Difícil por ser uma honra receber um convite desse porte, difícil pelo espaço que é reservado no mercado para cantoras negras como a Fabiana, complexo pela relação em vida que Fabiana tinha com a Dona Ivone Lara e não poder nesse momento participar de um musical que homenageará sua trajetória.

Me lembro de conhecer o trabalho da Fabiana em 2005 com o disco “O Samba é meu Dom” e desde então venho acompanhando todo o seu trabalho como fã assíduo de tudo que faz, e mesmo tendo lançado discos impecáveis nunca teve seu devido lugar dentro indústria fonográfica que a vê como negra, cantora de samba e que faz um tipo de música que não merece atenção do mercado. É o racismo nosso de cada dia mostrando suas faces mais cruéis até hoje.

Por isso, fico triste com os ataques desmedidos que à pessoa, obra e trajetória de uma das maiores cantoras que temos no país. Depois de muita reflexão, faço coro a escolha de Fabiana de não aceitar o papel, as reivindicações são legítimas embora desmedidas. O que peço é que o bonde do “like” ajude a dar visibilidade ao trabalho de cantoras negras de pele “retinta” e “não retinta” como a de Fabiana, pois, nesse momento da trajetória, ela ouviu as reivindicações, refletiu e optou pela não representação mostrando que tem caráter e lado na luta, coisa rara…

Entretanto, isso não apaga o fato de ter sido vista como negra em 42 anos de vida e 20 de trajetória artística muito bem desenvolvida, e o maior destaque que o seu trabalho, enquanto cantora negra de pele não retinta, ja recebeu foi esse massacre virtual promovido por nós.

Sejamos pontes e não muros, sobretudo com nossos semelhantes.

 

 

 

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