Tolstoi e Machado

Tolstoi

Pego para reler, depois de muitos anos, A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi.

Para muitos, é o maior romance curto ou conto longo da história. É uma fama mais que merecida. O gênio do Tolstoi copioso de Guerra e Paz e Ana Karenina está presente, compactamente, em Ivan Ilitch.

Ao relê-lo, noto uma semelhança no espírito com a fase adulta de Machado de Assis. Uma mistura de pessimismo com niilsmo. A miséria humana dominando tudo. Foram contemporâneos, gênios da segunda metade do século 19 mortos no início dos anos 1900. Não há sinais de que um tenha lido o outro, e é uma pena, sendo ambos tão grandes e tão aproximados na visão de mundo. Ana Karenina é a Capitu que ousou desafiar a sociedade. Por isso, terminou sob as rodas de um trem enquanto Capitu foi poupada ao menos parcialmente. Tolstoi transformou seu desgosto com o mundo numa obsessão em transformá-lo. Machado se contentou apenas em retratá-lo.

Machado poderia perfeitamente ter escrito Ivan Ilitch. Cenas como as seguintes de Ivan Ilitch são encontradiças em Machado:

# Morre alguém que tem um cargo alto na empresa e, feitas as lamúrias protocolares, as pessoas começam a especular sobre quem será promovido ou não.

# O primeiro impulso de ir ao velório é batido pela distância.

# Em pleno velório, amigos do defunto tentam encontrar um jeito de sair fora para não perder um jogo de baralho.

Fora tudo, Ivan Ilitch é um sujeito que subiu na vida adotando as opiniões e os modos de seus superiores. O conto O Medalhão, de Machado, trata exatamente disso.

Refletindo sobre o livro, lembrei de uma cena que me ficou marcada de um dos clássicos de Machado de Assis. O personagem é salvo da morte por alguém. Pensa, inicialmente, em dar como gratificação uma soma. Vai aos poucos diminuindo-a, à medida que os segundos passa. Termina por dar uma fração do que pensara inicialmente, e ainda assim fica com  a sensação de que deu mais do que o necessário.

Quando recomendo grandes livros, Ana Karenina e Guerra e Paz de Tolstoi estão sempre entre eles. A releitura de A Morte de Ivan Ilitch me fez agora incluir essa pequena obra prima na lista A do que se deve ler – uma curta e preciosa lembrança da precariedade do caráter dos homens.

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