Spartacus: um representante do proletariado na Antiguidade

O texto a seguir, de autoria de Alan Woods, foi publicado originalmente no site In Defence of MarxismA tradução foi feita pela nossa jovem colunista Camila Nogueira.

"A morte de Spartacus", por Hermann Vogel
“A morte de Spartacus”, por Hermann Vogel

 

1. O Gladiador

Cerca de cem anos antes do nascimento de Cristo, um jovem escravo chamado Spartacus ameaçou o poder da República Romana. Spartacus (109 a.C. – 71 a.C.) foi o líder (ou, possivelmente, um dos muitos líderes) de uma numerosa revolta de escravos que ficou conhecida como a Terceira Guerra Servil. Sob sua liderança, um grupo de gladiadores rebeldes transformou-se em um imenso exército revolucionário que contava com aproximadamente 100.000 soldados. O exército romano completo foi necessário para esmagar a revolta.

Apesar de sua merecida fama como um grande líder revolucionário e um dos mais espetaculares generais da Antiguidade, não sabemos muito sobre Spartacus em si. Como a história é escrita pelos vencedores, as vozes dos inúmeros escravos foram ouvidas apenas a partir de relatos redigidos por seus opressores. As escassas informações que possuímos sobre Spartacus foram fornecidas por historiadores romanos e, portanto, hostis à revolta. São, em grande parte, contraditórios.

Há outros líderes da Terceira Guerra Servil cujos nomes conhecemos: Crixus, Gannicus, Oenomaus e Castus – gladiadores da Gália e da Germânia; mas sabemos ainda menos sobre eles. Aqueles que escrevem a história tendem a refletir fielmente a psicologia, os interesses e as inclinações da classe dominante. Tentar compreender Spartacus e seus companheiros a partir de fontes romanas é como procurar entender Lênin e Trotsky lendo os relatos difamatórios escritos por aristocratas e burgueses inimigos da Revolução Russa. Através desse espelho distorcido, podemos apenas captar vislumbres tentadores do verdadeiro Spartacus.

Plutarco afirmou:

“Ao se instalarem em um local defensável, os rebeldes apontaram três capitães, dos quais Spartacus – um trácio de uma das tribos nômades – era o chefe: um homem não apenas corajoso e espirituoso, mas com uma gentileza e compreensão superiores à sua condição, muito mais grego do que a maior parte das pessoas de seu país”.

Tais palavras, escritas por um inimigo, apresentam Spartacus a partir de uma luz particularmente favorável, o que requer uma explicação. Não é difícil deduzi-la. Um homem – ou o que é ainda pior, um escravo – que aniquilou uma legião romana atrás da outra deveria ser dotado de qualidades extraordinárias. Esta era a única maneira de os romanos aceitarem que “meros escravos” haviam deixado de joelhos suas legiões invencíveis.

Outros historiadores alegaram que Spartacus tinha sangue real, pela mesma razão. Foi dito que ele possuía atributos sobre-humanos. Outros afirmaram que sua esposa era uma feiticeira, e assim por diante. Isso tudo faz parte da propaganda romana que procurava Spartacus como um homem muito especial a fim de reduzir a vergonha e a humilhação que a classe dominante sentiu ao ser quase derrotada por trabalhadores rurais, criados e gladiadores.

As verdadeiras origens de Spartacus não são claras e, embora as fontes da Antiguidade não tenham entrado em concordância quanto ao lugar de onde ele veio, é provável que tenha nascido na Trácia (atual Bulgária). Aparentemente, recebeu treinamento militar e era um guerreiro experiente (talvez tenha sido mercenário no exército romano). Ainda de acordo com Plutarco, a esposa de Spartacus era uma profetisa da mesma tribo que foi escravizada com ele. De qualquer modo, sabemos que ele foi escravizado e vendido, em um leilão, para um treinador de gladiadores de Cápua. Appian o retratou como um trácio por nascimento que havia lutado para os romanos, mas que optara por se rebelar e fora aprisionado e vendido para lutar na arena. Florus diz que Spartacus fora soldado no exército romano, passara disso para desertor e ladrão e, mais tarde, graças à sua força, fora vendido como gladiador.

2. A Revolta dos Gladiadores

Na época da revolta de Spartacus, a República Romana havia submergido em um período de tumulto que terminaria apenas com o domínio dos Césares. Territórios romanos estavam sendo expandidos para o leste e o oeste; generais ambiciosos procuravam ganhar reconhecimento lutando na Espanha ou na Macedônia para depois iniciar carreira política em Roma. Roma era uma sociedade militarista: batalhas eram encenadas no popular entretenimento de combate gladiatório. Enquanto gladiadores bem-sucedidos eram idolatrados e aclamados por multidões, em termos de status social eles se encontravam um pouco acima dos condenados; de fato, grande parte dos gladiadores eram criminosos condenados. Outros eram escravos. Naquela época, uma em cada três pessoas em Roma havia sido escravizada. Escravos eram passíveis de sofrer punições extremas e arbitrárias por parte de seus donos; ainda que a pena de morte para romanos livres fosse invocada raramente, escravos eram crucificados rotineiramente.

Spartacus foi treinado em uma escola gladiatória pertencente a Lentulus Batiatus, localizada perto de Cápua. Por volta de 73 a.C., Spartacus liderou uma revolta na qual setenta e quatro gladiadores se armaram, dominaram os guardas e escaparam. É da seguinte maneira que Plutarco lida com essa ocasião em sua História Romana:

“A inssurreição dos gladiadores e a devastação da Itália, chamada frequentemente de Guerra de Spartacus, se iniciou nessa ocasião. Um tal Lentulus Batiatus treinou muitos gladiadores de Cápua, a maioria gauleses e trácios. Não foi por qualquer falta que tenham cometido, somente pela crueldade arbitrária do mestre, que foram confinados e obrigados a lutar um contra o outro. Duzentos deles haviam formado um plano para escapar, mas foram descobertos. Aqueles capazes de se antecipar ao mestre, cerca de setenta e quatro, roubaram espetos e facas e percorreram a cidade. Encontrando no caminho carroças que transportavam armas de uma arena para a outra, apoderaram-se delas e se armaram. Ao se instalarem em um local defensável, os rebeldes apontaram três capitães, dos quais Spartacus (um trácio de uma das tribos nômades) era o chefe: um homem não apenas corajoso e espirituoso, mas com uma gentileza e compreensão superiores à sua condição, muito mais grego do que a maior parte das pessoas de seu país”.

Armados, os escravos partiram para as encostas do Monte Vesúvio, próximo da atual Nápoles. As notícias da fuga encorajaram outros a segui-los. Um fluxo constante de escravos rurais se juntou aos amotinados, e os números aumentavam diariamente. O grupo percorreu a região, roubando comida e suplementos das fazendas. A partir daí, os rebeldes conquistaram pequenas vitórias, que os conduziram a êxitos maiores. Nas palavras de Plutarco, “ao encontrarem uma boa quantidade de armamentos dignos de soldados, os rebeldes procuraram se desfazer dos que tinham, pois sabiam que eles eram bárbaros e desonrados”.

Podemos imaginar a excitação dessas primeiras vitórias e a satisfação sentida pelos gladiadores no momento em que abandonaram o odioso uniforme de sua venda e se vestiram como soldados de verdade. Esse pequeno detalhe revela algo muito mais importante do que armas e equipamentos. Revela uma confiança crescente e, acima de tudo, a rejeição não apenas do estado servil mas da mentalidade servil. O mesmo aconteceu em todas as revoluções da história, em que os trabalhadores comuns (descendentes lineares dos escravos) reconheceram suas potencialidades e começaram a pensar e a agir como homens e mulheres livres.

Essa rebelião não foi, de modo algum, uma ocasião rara. Ainda que as notícias sobre o acontecimento tenham causado certa preocupação quando atingiram Roma, não foram, de início, fonte de receio e angústia. No século anterior, duas revoltas de escravos, ambas na Sicília, haviam sido esmagadas e resultado em dezenas de milhares de mortes. Na mente dos augustos senadores, não havia dúvidas de que o desfecho dessa revolta seria o mesmo.

A princípio, as autoridades romanas não se mostraram particularmente receosas da revolta. O Senado nem mesmo se incomodou em enviar uma legião para suprimir os rebeldes; enviaram uma milícia de três mil soldados comandados pelo pretor Claudius Glaber. Eles consideraram a rebelião uma mera operação policial com a qual poderiam lidar com facilidade. Imaginaram que as medidas tomadas eram mais do que o suficiente para suprimir um pequeno número de escravos com armas precárias. Mas o exército de Spartacus havia se tornado um ímã que atraía escravos dos arredores. Ao contrário dos soldados romanos e de seus oficiais, os escravos estavam lutando uma batalha desesperada pela sobrevivência. Em contraste, os generais romanos subestimaram o inimigo e foram, inicialmente, indevidamente despreocupados.

Todos sabemos que revolucionários podem ganhar apenas partindo para a ofensiva e exibindo uma audácia aterradora. Quando os romanos os cercaram no Vesúvio e bloquearam sua escapada, os escravos se encontraram sitiados em uma montanha acessível apenas por meio de uma passagem estreita, árdua e repleta de soldados romanos, “envolvidos exclusivamente por precipícios íngremes e escorregadios”. Em uma impressionante manobra técnica, Spartacus e seus homens produziram cordas a partir de videiras e desceram de um lado do vulcão até a retaguarda do exército romano, em um ataque surpresa.

Plutarco descreve a situação:

“No topo, havia várias videiras selvagens e, cortando a quantidade necessária para atingir seus propósitos, os escravos as transformaram em cordas longas o suficiente para poderem descer e atingir o chão. Um por um, todos desceram, exceto um deles que ficou para lhes jogar todas as armas e que, depois disso, também conseguiu se salvar. Os romanos não esperavam por nada disso e, pela retaguarda, os rebeldes os atacaram e tomaram seu campo”.

Claudius Glaber, esperando obter uma vitória fácil sobre um punhado de escravos, provavelmente não se incomodou em tomar a mínima precaução e fortificar seu campo. Ele nem mesmo colocou sentinelas adequados para tomar conta do acampamento. Naturalmente, os romanos pagaram um preço bem alto por essa negligência: a maioria deles morreu, incluindo o pretor Claudius Glaber. Para os romanos, esta foi uma derrota infame. Agora, os escravos possuíam armas e armaduras. E, acima de qualquer outra coisa, eles desenvolveram a convicção de que podiam lutar e ganhar. Essa foi sua maior conquista.

3. Spartacus marcha para o Norte

Spartacus foi um general excelente, o que tende a confirmar a hipótese de que serviu como mercenário no exército romano. Se isso for verdade, ele deve ter entrado em contato com as táticas romanas e isso, juntamente com a audácia que é uma qualidade essencial para qualquer revolucionário bem sucedido, fez dele um inimigo formidável. Como seu exército era formado por certo número de gladiadores e por trabalhadores inexperientes e mal armados, suas táticas iniciais foram defensivas. Os rebeldes se esconderam no Monte Vesúvio até o momento em que treinaram o suficiente para enfrentar o inevitável conflito com o exército romano.

Sabendo que seria obrigado, em breve, a enfrentar uma batalha mais séria, Spartacus delegou aos gladiadores mais experientes a tarefa de treinar pequenos grupos, que treinavam outros pequenos grupos e assim por diante. Desse modo, ele foi capaz de treinar seu exército em algumas semanas. Além disso, o que faltava ao exército de escravos em matéria militar era compensado pelo heroísmo e pela coragem de pessoas que lutavam por sua própria sobrevivência e que, exceto por correntes e grilhões, nada tinham a perder.

Houve vários conflitos com o exército romano, vencidos por Spartacus e seus guerreiros. O pretor Publius Varinus enfrentou Spartacus com dois mil homens, e foi derrotado pelos rebeldes. Cossinius foi enviado “com forças consideráveis”, e por pouco não foi capturado enquanto tomava banho em Salinae, de onde escapou com grande dificuldade. Os escravos seguiram os romanos em retirada, matando boa parte deles. Por fim, invadiram o acampamento romano e o conquistaram, assassinando Cossinius.

Diante de tais êxitos, a moral dos rebeldes cresceu. O Senado estava começando a temer a rebelião dos escravos. Por fim, até mesmo os nobres mais tolos se deram conta de que estavam enfrentando um inimigo extremamente poderoso – um inimigo que possuía um vasto número de infiltrados em campo inimigo –; em cada fazenda, em cada mansão havia escravos, todos considerados rebeldes em potencial. A batalha contra Cossinius fez aumentar a fama de Spartacus, e a mensagem enviada aos romanos era muito clara: “Vocês não são invencíveis”.

Um enorme número de escravos se juntou à rebelião e logo o pequeno número de rebeldes cresceu o suficiente para se tornar um grande exército. Determinadas estatísticas apontam que Spartacus e seus companheiros conseguiram juntar 140.000 escravos fugidos, acostumados a situações difíceis, endurecidos pelos longos anos de trabalho árduo, que nada tinham a perder. Segundo Plutarco, um grande números de pastores e vaqueiros, “homens robustos e ágeis”, se juntaram aos revoltosos – a alguns deles, os comandantes deram armamentos completos; outros foram usados como escoteiros ou sentinelas. No fim, dezenas de milhares desses trabalhadores se juntaram à revolta.

O exército de Spartacus passou o inverno de 73 a.C. acampado na costa sul da Itália, com cada vez mais soldados, armas e confiança. Na primavera, se dirigiram ao norte; o audacioso plano consistia aparentemente em marchar ao redor da Itália, cruzar os Alpes e escapar para a Gália (atualmente, a França; amplamente livre do controle de Roma). De acordo com Plutarco: “Sabendo que não seria capaz de igualar suas forças às do Império, ele [Spartacus] marchou com seu exército em direção aos Alpes, esperando que, no momento que o cruzassem, cada um de seus guerreiros voltasse para a própria terra de origem, alguns para a Trácia, outros para a Gália”.

4. A divisão entre os escravos

O Senado, consideravelmente alarmado, enviou duas legiões, sob o comando dos cônsules Gellius Publicola e Gnaeus Cornelius Lentulus Clodianus, para conter a rebelião. Spartacus estava prestes a enfrentar o maior desafio de seu percurso: um exército de duas legiões – 10.000 homens – sob comando de Cassius Longinus, Govenador da Gália Cisalpina (“Gália deste lado dos Alpes” – atualmente, o norte da Itália). Os romanos conquistaram uma primeira vitória quando derrotaram um contingente gaulês comandado por Crixus. O motivo para esse revés foi a divisão hierárquica entre os rebeldes.

A obrigação de manter a unidade e a disciplina entre escravos que pertenciam a nações diferentes, falavam línguas diferentes e adoravam deuses diferentes não deve ter sido fácil. Para que tal tarefa pudesse ser cumprida, era necessário um líder de estatura colossal – e nem mesmo ele poderia ser bem-sucedido o tempo inteiro. Crixus e os gauleses se recusaram a marchar sob a liderança de Spartacus. Aparentemente, desejavam permanecer na Itália, seduzidos pela perspectiva de viver de pilhagens. De acordo com Plutarco, Spartacus desejava partir para a Gália:

“Confiantes e pretensiosos, eles não só se recusaram a acatar as ordens de Spartacus como se afastaram do restante do exército e devastaram a Itália; o Senado, anteriormente movido apenas graças à indignidade e à infâmia tanto do inimigo quanto da revolução, considerou aquela questão de extrema urgência e enviou ambos os cônsules na tentativa de resolvê-la”.

O comentarista romano compreendeu a raiz do problema. Alguns dos líderes rebeldes, intoxicados com seus primeiros êxitos, tornaram-se excessivamente confiantes. Crixus abandonou Spartacus e levou consigo cerca de 30.000 gauleses e germanos. Essa separação foi um equívoco desastroso: Crixus foi derrotado por Publicola e morreu em batalha. Os gauleses pagaram um preço terrível por isso e 20.000 deles foram mortos. Esta foi uma primeira mostra das consequências terríveis que a divisão entre os escravos poderia causar.

Apesar dos atos desastrosos de Crixus, Spartacus organizou jogos funerários em homenagem ao líder gaulês, incluindo um combate gladiatório entre soldados romanos capturados em batalha. Tal detalhe revela a profunda nobreza de caráter de Spartacus. Mais tarde, Spartacus derrotou sucessivamente o cônsul Lentulus e o cônsul Publicola, como relata Plutarco:

“O cônsul Gellius, ao encontrar um grupo de germanos que, excessivamente desdenhosos e confiantes, abandonaram Spartacus, derrotou-os com grande facilidade. Mas quando Lentulus – e seu enorme exército – cercaram os guerreiros rebeldes, foram surpreendidos por Spartacus; que, assumindo as rédeas da batalha, derrotou-os e apoderou-se de seus pertences. Conforme os escravos rumavam aos Alpes, Cassius, pretor daquela parte da Gália, enfrentou-os com cerca de 10. 000 soldados; mas, subjugado em batalha, escapou com dificuldade e perdeu grande parte de seus guerreiros”.

Esta vitória consistiu em um golpe violento contra o prestígio de Roma e a confiança do Senado. O exército romano não apenas foi massacrado pelos rebeldes como Spartacus capturou os fasces, que eram símbolos da autoridade romana (e origem da palavra fascismo). Em Mutina (atual Modena), os escravos derrotaram mais uma legião, esta comandada por Gaius Cassius Longinus, governador da Gália Cisalpina. O líder da rebelião, no presente momento, parecia completamente invencível.

5. Os escravos mudam de rumo

O que aconteceu a seguir consiste em um dos grandes mistérios da história. Os escravos estavam à vista dos Alpes e poderiam ter cruzado a Gália e ido para a Germânia, onde teriam mais chance de escapar da tirania romana, ou até mesmo para a Espanha, onde uma rebelião estava despontando. Só que, por alguma razão, houve uma mudança de planos e Spartacus retrocedeu, optando por permanecer nos arredores da Itália. Qual foi o motivo da súbita mudança? Não sabemos. É possível que tenham se sentido desanimados diante da perspectiva de cruzar os Alpes; ou talvez os guerreiros, sentindo-se arrebatados com os êxitos recentes, tenham sido seduzidos com a ideia de realizar pilhagens ao longo das ricas províncias italianas.

No entanto, os eventos não estavam mais agindo a favor de Spartacus. No presente momento, um grande número de mulheres, crianças e velhos havia se juntado aos rebeldes com a perspectiva de escapar de uma vida de servidão. Havia cerca de 10.000 seguidores inaptos à batalha – e todos eles representavam bocas que deveriam ser alimentadas. Isso certamente dificultou sua movimentação. E, acima de qualquer outra coisa, os romanos não voltaram a cometer o erro imbecil de subestimar os méritos de seu inimigo.

Quando o Senado descobriu que Spartacus havia perpetrado novas vitórias contra os exércitos da República, mostrou-se furioso com os cônsules e exigiu que se mantivessem fora do conflito. No lugar deles, deram a Marcus Licinius Crassus a responsabilidade de lutar contra os insurgentes. Ele era o homem mais rico de Roma, um político muito ambicioso à procura de glória. Crassus não era um homem estúpido e, portanto, não subestimou seus oponentes. Seu objetivo era fortificar seu exército com cautela e evitar uma batalha decisiva, confiante que, no fim, os recursos superiores e a riqueza de Roma acabariam enfraquecendo os insurgentes e criando condições que favoreceriam os romanos.

No entanto, muitos daqueles que se juntaram a Crassus em busca de glória não compartilhavam o conhecimento do líder em relação aos inimigos que estavam para enfrentar. Eram jovens vaidosos, frívolos e despreocupados, que encaravam a luta contra os insurgentes como uma espécie de caça à raposa. Plutarco nos informa: “Boa parte dos nobres se voluntariou para acompanhá-lo, alguns por amizade e outros por ambição”. Novamente, essa confiança excessiva funcionou como uma receita para o desastre.

Enquanto Crassus permanecia nos arredores de Picenum, à espera de Spartacus, enviou Mummius, seu tenente, acompanhado por duas legiões, para observar os movimentos do inimigo; mas deu-lhe a ordem expressão de não entrar em conflito sob circunstância alguma. Limitou-se a ordenar que Mummius e seus homens apreendessem uma pequena colina, silenciosa e discretamente, a fim de não chamar a atenção do inimigo.

Confiante, o tenente de Crassus agarrou a primeira oportunidade de batalhar que se apresentou – e foi violentamente derrotado. Seus guerreiros teriam sido aniquilados, não fosse por Crassus, que se apresentou imediatamente e se interpôs na luta, que foi particularmente sangrenta. Muitos de seus homens foram mortos e muitos outros só se salvaram porque fugiram. Em contraste, diz Plutarco: “Dos doze mil e trezentos rebeldes que morreram, apenas três foram encontrados com ferimentos nas costas. Todo o resto morreu corajosamente”.

A atitude corajosa e determinada dos escravos contrastava violentamente com a conduta covarde dos romanos nessas primeiras batalhas, o que compeliu Crassus a redespertar um método romano de punição que, na época, era visto como ultrapassado: dizimação. Em uma tentativa de restaurar a disciplina, Crassus começou censurando Mummius com severidade. Depois, providenciou novas armas aos soldados; mas, em um gesto simbólico humilhante, obrigou-os a pagar um depósito por seus equipamentos a fim de se assegurar que não os deixariam para trás novamente.

Ele selecionou quinhentos homens, os primeiros a fugir, e dividiu-os em cinquenta grupos de dez; a cada um dos grupos, determinou uma espécie de execução, “com uma variedade de circunstâncias terríveis e pavorosas, as quais o exército inteiro foi obrigado a assistir”, explicou Plutarco. Esse tipo de punição havia caído em desuso e, ao revivê-la, Crassus mostrou aos seus subordinados que tinha a séria intenção de vencer essa guerra e que não teria escrúpulos em destruir qualquer pesssoa que se colocasse entre ele e seu objetivo. Desse momento em diante, os soldados romanos aprenderam a sentir mais medo de seu general do que dos escravos.

6. Armadilha

No fim de 72 a.C., Spartacus e seu exército acamparam em Reggio Calabria, próximo ao Estreito de Messina. Spartacus tentou negociar com piratas sicilianos, na expectativa de ir para a Sicília com os escravos. De acordo com Plutarco: “Ele pretendia ir para a Sicília na companhia de dois mil de seus soldados. Sua intenção era reacender a chama da guerra dos escravo, que estava apaziguada e tinha a necessidade de alguma ardência para voltar a queimar. O negócio entre Spartacus e os piratas foi firmado; mas, quando receberam o pagamento, os tratantes o enganaram e partiram sozinhos”.

Essa estratégia mostra uma profunda inteligência tática. Se fossem para a Sicília e incitassem mais uma rebelião de escravos, a chance de defender a ilha contra Roma aumentaria. A oportunidade de cruzar os Alpes havia sido perdida; portanto, a partida para a Sicília era a única opção de Spartacus – além do ataque direto à Roma. Mas o projeto falhou, pois os piratas traíram os escravos. Há duas opções. Talvez os homens de Crassus os tenham subornado, ou eles apenas temiam que, ao ajudar os escravos, poderiam incitar o ódio de Roma. Quaisquer que tenham sido as razões, o fato é que o exército de Spartacus foi cercado em Calabria.

A posição de Spartacus e de seus seguidores era desesperadora. Não apenas não conseguiram partir para a Sicília como, no início de 71 a.C., foram atacados por oito legiões comandadas por Crassus. O exército de escravos estava de costas para o mar, o que os impedia de escapar. Notícias ainda piores estavam a caminho: A morte de Quintus Sertorius, líder de uma rebelião na Espanha, permitiu que o Senado Romano enviasse, em auxílio de Crassus, o guerreiro Pompeu, até então ocupado lutando conta Sertorius. Foi enviado também Marcus Terentius Varro Lucullus, da Macedônia. Os romanos – que a princípio subestimaram o inimigo – foram obrigados a concentrar todas as suas forças na luta contra ele.

Aparentemente, Spartacus ordenou que um prisioneiro romano fosse crucificado. De acordo com os propagandistas romanos, esse comportamento desprezível evidenciava o quão “bárbara e cruel” era a natureza dos rebeldes. No entanto, a crucificação era uma punição comum para os escravos; e a história está aqui para provar que métodos cruéis e bárbaros são empregados pelos mestres com muito mais frequência do que pelos escravos. É provável que a decisão tomada por Spartacus tenha sido cuidadosamente calculada, uma vez que a crucificação era um método de execução degradante e cruel raramente usado em romanos. A partir desse ato, era como se dissesse: “Vocês pensam que a vida dos escravos é insignificante, não é mesmo? Nós os faremos pagar por tudo o que fizeram.”

Os romanos estavam determinados a reprimir a rebelião e a ensinar, aos escravos rebeldes, uma lição que o mundo jamais esqueceria.

A confiança excessiva causou, dessa vez, a derrota dos insurgentes. Nas palavras de Plutarco:

“Frente às adversidades que se apresentavam, Spartacus retirou-se com seu exército para as montanhas de Petelia; mas Quintius, um dos soldados de Crassus, e Scrofa, o questor, seguiram os rebeldes e os enfrentaram. Foram derrotados e partiram. Scrofa foi gravemente ferido. No entanto, esse sucesso estrondoso foi a causa da ruína de Spartacus. Loucos para lutar contra os romanos, os escravos o convenceram a liderá-los até Lucania, onde enfrentariam o exército de Crassus. Era tudo o que Crassus queria”.

O cauteloso Crassus não desejava enfrentar, em uma batalha imediata, um exército cuja vivacidade, força e coragem havia derrotado continuamente as forças de Roma. Em vez de atacar, ordenou que suas tropas construíssem uma muralha ao redor sobre o istmo. Todas as proezas tecnológicas de Roma foram empregadas a fim de derrotar os escravos. Nas palavras de Plutarco:

“Essa tarefa foi realizada em um espaço de tempo muito pequeno. A muralha construída de um extremo do mar ao outro era alta e forte. Ao construí-la, Crassus efetuou dois de seus objetivos: Afastou seus soldados da ociosidade desmoralizante e negou aos inimigos comida e oportunidade de pilhagem”.

O esforço dos romanos foi em vão. Apesar da assustadora desvantagem, Spartacus exibiu seu poder e inteligência sobrenaturais. Em uma noite tempestuosa, ordenou que seus homens preenchessem parte do fosso com terra e com galhos de árvore. Foi capaz de passar pela muralha com um terço de seu exército. Mas esse foi como que um último espetáculo de resistência, uma derradeira explosão de energia que precedeu o colapso da revolta. Em um golpe audacioso, conseguiu romper as linhas de frente de Crassus e escapar por Brundisium (atual Brindisi), onde estava o exército de Lucullus.

O receio de Crassus, quando soube que Spartacus o havia tapeado, era que os escravos marchassem diretamente para Roma. Na verdade, essa era provavelmente a melhor alternativa para Spartacus – a única, talvez: arriscar todas as suas chances em um último ataque desesperado no covil do inimigo. Mas essa oportunidade foi perdida devido a um novo florescimento de divisões e conflitos entre os escravos. Novamente, uma parte do exército de Spartacus se amotinou, abandonou o comandante e montou um novo acampamento, próximo ao lago Lucânia. Crassus atacou os escravos dissidentes e os derrotou. Ele teria matado a todos se Spartacus não houvesse aparecido, reunindo suas tropas e obrigando Crassus a debandar.

7. A batalha final

Apesar do recente contratempo, estava claro para Crassus que os escravos estavam em uma posição complicada. Sentindo que a vitória estava ao seu alcance, Crassus se arrependeu de ter ordenado ao Senado a convocação de Lucullus e Pompeu. Como todos os políticos daquela época, ele enxergava a guerra como um meio de conquistar o prestígio e glória que poderiam lhe proporcionar um cargo público de alto prestígio. Foi exatamente o que Júlio César fez, alguns anos depois. Se dois outros generais chegassem na hora no momento final, logo antes da batalha decisiva, pareceria que eles, e não Crassus, haviam vencido a guerra. E, de fato, foi Crassus quem venceu a batalha final contra os excravos, mas Pompeu ficou com a glória.

Crassus estava, portanto, ansioso para dar início à batalha o mais rápido possível:

“Pois tudo indicava que Pompeu estava a caminho; e o povo dizia abertamente que a honra estava reservada a ele, que seria ele quem colocaria um fim àquela guerra. Crassus desejava provar que estavam errados. Ele e seu exército passaram a acampar perto dos inimigos, que responderam com um ataque. Foi iniciada a batalha decisiva”. (Crassus, Plutarco)

Crassus não apenas estava impaciente para derrotar os rebeldes como possuía forças superiores. O acampamento próximo ao exército rebelde era uma provação que tinha como objetivo forçá-los a lutar. E eles lutaram. Spartacus, sabendo que novos reforços chegariam, sabia que não podia mais evitar uma batalha. A força de Roma aumentava continuamente. Conforme os reforços chegavam, o comandante do exército rebelde foi obrigado a apostar todas as fichas em um derradeiro e supremo esforço. Karl Marx usou, muitos anos depois, as seguintes palavras para descrever o levante heróico da Comuna de Paris: “Assalto aos céus”. Ao reunir seus homens e estimular o espírito combatente dentro deles, Spartacus organizou um “assalto aos céus” formidável.

Podemos apenas imaginar o que passava pela sua cabeça naquele momento fatídico, quando todo o destino da rebelião repousava no desfecho dessa última batalha. Exibindo as qualidades magníficas de um grande general, ele juntou todos os seus guerreiros. O que se passou a seguir consiste em um dos momentos mais comoventes da história. Quando trouxeram-lhe seu cavalo, Spartacus o matou na frente de todo o exército, dizendo: “Se vencermos, terei os cavalos dos inimigos, melhores que o meu. Se perdermos, não precisarei de nenhum”. A partir desse ato, Spartacus exibiu uma espantosa coragem pessoal e uma completa indiferença quanto a sua própria segurança – e também enviou aos seus homens uma mensagem inflexível: “Ou ganhamos essa batalha ou morremos”.

Até mesmo os historiadores romanos são obrigados a admitir que os escravos lutaram bravamente. O desfecho dessa batalha é conhecido. De acordo com relatos romanos, Spartacus passou como um relâmpago pela massa de homens lutando e foi em direção ao próprio Crassus. Entre uma chuva de sangue e golpes, não foi capaz de conquistar seu objetivo; mas conseguiu matar dois centuriões. Ao ser cercado por soldados romanos, lutou corajosamente – e morreu com honra.

Após a batalha, os legionários encontraram e resgataram 3.000 prisioneiros romanos, todos ilesos. O tratamento civilizado dispensado aos prisioneiros romanos por parte dos escravos era um forte contraste ao destino imposto por Crassus sobre os seguidores de Spartacus. Crassus ordenou que 6. 000 sobreviventes fossem crucificados ao longo da Via Ápia, no caminho entre Cápua e Roma, uma distância de cerca de 200 quilômetros. Seus cadáveres ocupavam a estrada inteira desde Brindisi até Roma. Como Crassus jamais ordenou que os corpos fossem retirados das cruzes, anos depois da batalha aquele espetáculo macabro ainda podia ser contemplado.

Cerca de 5.000 escravos escaparam da captura. Os rebeldes remanescentes partiram para o norte e foram interceptados perto do rio Silarus, na Lucânia, por Pompeu. Os escravos, exaustos devido às batalhas incessantes, foram confrontados com o exército descansado de Pompeu, um dos generais romanos de maior prestígio. Pompeu os derrotou e, mais tarde, usou o massacre cruel de um bando de escravos cansados, feridos e desanimados como pretexto para reivindicar a si mesmo a honra de ter colocado um fim aos rebeldes.

Pompeu escreveu imediatamente uma carta ao Senado, afirmando que, por mais que Crassus tenha derrotado os escravos no campo de batalha, ele, Pompeu, havia colocado um fim à guerra. Quando ambos os comandantes voltaram para Roma, Pompeu foi recebido com uma marcha triunfal graças à sua vitória sobre Sertorius e a Espanha; enquanto a Crassus foi recusado o reconhecimento que havia desejado com tamanha violência. No lugar disso, teve que se contentar com uma honra quase ínfima se comparada à marcha triunfal, a aclamação pública. Entre os romanos, Pompeu tornou-se Pompeu, “o Grande”, reconhecido como um grande herói. Enquanto isso, Crassus, para seu próprio desgosto, não recebeu crédito nem glória por ter salvado a República de Spartacus.

Essa ingratidão elucida alguns pontos da psicologia da classe dominante romana; ricos, hipócritas, orgulhosos e escravocratas, jamais seriam capazes de admitir que, em Spartacus, encontraram um inimigos que os fizera tremer de medo. Os nobres senadores esqueceram, convenientemente, todo o terror que o nome de Spartacus provocara em seus corações poucos meses atrás. Era impensável que uma guerra contra um exército de escravos recebesse grande reconhecimento.

Desesperado para receber a marcha triunfal que o Senado lhe recusara, Crassus tentou alcançar a glória na Ásia, onde merecidamente morreu sob circunstâncias ignominiosas. Pompeu foi morto no Egito após sua derrota na guerra civil contra César.

Daí, podemos concluir que de fato existe, no final das contas, certa justiça poética na história. Esses homens foram praticamente esquecidos, enquanto o nome de Spartacus é glorificado; e, até os dias de hoje, sua memória permanece impressa nos corações de milhões de pessoas.

8. Mito e Realidade

A lenda de Spartacus sobreviveu a sua morte. Para os romanos, a história da revolta dos escravos foi um perigoso aviso, pois mostrou que uma sociedade estruturada na base da existência de escravos e súditos pode, um dia, ser subjugada por eles. Quatro séculos depois, foi o que aconteceu, e Roma foi dominada pelos bárbaros. A memória de Spartacus permanece viva, como um lembrete de que as massas oprimidas podem confrontar seus opressores. Spartacus é fonte de inspiração para todos os que, até hoje, lutam por seus direitos.

Não foi por acaso que, na Primeira Guerra Mundial, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht adotaram o nome do revolucionário quando lançaram a Liga Espartaquista. Para Karl Marx, Spartacus foi um grande herói, “o melhor camarada que a Antiguidade tinha a oferecer”. Em uma carta para Engels, escrita em 1861, Marx contou estar lendo Guerras Civis Romanas, de Appian: “Se considerarmos a história completa da Antiguidade, Spartacus emerge como o homem mais notável desse período; – um grande general, nobre de caráter, um verdadeiro representante do proletariado na Antiguidade. Pompeu era um merda […]” Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento histórico encontraria certa dificuldade em discordar dessa avaliação.

A figura de Spartacus e de sua grande rebelião inspirou muitas obras, como por exemplo o romance de Howard Fast e o filme de Stanley Kubrick, de 1960. Em seu livro Spartacus, F.A. Ridley desdenhou as interpretações de Kubrick e de Fast, e foi injusto em ambos os casos. Este é mais um triste exemplo de como a interpretação estreita e mecânica do marxismo é incapaz de distinguir os bosques das árvores.

Fast não tentou escrever um livro de história, e sim um romance histórico; e, embora tenha tomado algumas liberdades, seu romance captou muito bem o espírito do tema. Não se trata da história, e sim de um romance histórico que representa eventos verdadeiros de maneira imaginativa, sem que a narração se distancie drasticamente do registro histórico. Há, evidentemente, algumas coisas que não aconteceram de fato, em especial no filme. Ao contrário da célebre sequência cinematográfica, não foi exigido que os sobreviventes da batalha identificassem Spartacus, porque ele havia morrido no campo de batalha.

Em primeiro lugar, precisamos levar em conta que, sendo obras de arte, é natural que o romance e o filme apresentem eventos históricos sob uma luz dramática. O importante é que uma obra de arte pode apresentar uma verdade profunda mesmo quando se afasta do registro histórico em si. Aquela cena dramática em que, um por um, os escravos desafiam seus senhores, levantam-se e declaram de maneira enfática “Eu sou Spartacus” de fato contém uma verdade profunda que é aplicável não só à revolta de Spartacus como a todas as revoltas feitas, durante o curso da história, pelos oprimidos. Pois a força de Spartacus residia precisamente no fato de que, em sua pessoa, ele incorporava todas as esperanças e aspirações da massa de escravos que desejavam a liberdade. E, em cada um desses escravos, havia uma pequena partícula de Spartacus. E, quanto à subsequente cena da crucificação em massa, ela é historicamente precisa.

O pouco que sabemos desse grande homem, sabemos exclusivamente a partir do que seus inimigos escreveram sobre ele. E o que sabemos? O suficiente, suponho, para deduzirmos que Spartacus foi um comandante brilhante e um estrategista engenhoso. É provável que tenha sido o maior general de toda a Antiguidade. Mas, provavelmente, ele não foi, como apresentado no filme e no romance, o líder revolucionário de uma força de combate disciplinada. Se é que tinha uma estratégia política claramente estabelecida, não sabemos. Havia pouca unidade em seu exército além do objetivo de se libertar da escravidão e, no final da guerra, o destino da revolta foi selado tanto pela força superior da República romana quanto pelos conflitos internos no exército rebelde.

Foi Spartacus um precursor do comunismo? Em seu romance, Howard Fast coloca a seguinte frase na boca do líder escravo: “O que quer que peguemos, será de todos, e nenhum homem terá mais do que suas armas e suas roupas. Será como nos velhos tempos”. Não sei de onde Fast tirou essa ideia, mas não é impossível que alguma espécie de comunismo primitivo ou de concepções igualitárias de fato existissem naquela época; assim como, mais tarde, existiram entre os primeiros cristãos.

É possível que tendências utópicas ou comunistas estivessem presentes na grande revolta de 71 a.C, baseadas nas memórias obscuras de um tempo remoto em que todos os homens eram iguais e que a terra pertencia a todos. Mas, nesse caso, a revolta perderia seu aspecto progressista e poderia ser vista como um comunismo de consumo (“partilha equitativa”) e não produção coletiva.

Em tais condições, tal opção não teria desenvolvido a sociedade, e sim a atrasado. O comunismo de verdade (uma sociedade sem classes) não pode ser construído com base no atraso e na austeridade. É necessário que as forças produtivas sejam desenvolvidas para que homens e mulheres se livrem do peso do trabalho e tomem o tempo necessário para o desenvolvimento de seu potencial humano. Essas condições materiais não existiam na época de Spartacus.

O que teria acontecido se os escravos ganhassem a guerra? Se tivessem conseguido dominar Roma, o curso da história teria sido significantemente alterado. É claro que não é possível dizer o que teria acontecido. É provável que os escravos ganhassem a liberdade, mas nem mesmo disso podemos ter certeza. Mesmo se isso tivesse acontecido, dado o nível de desenvolvimento das forças produtivas, a tendência usual seria partir na direção de uma espécie de feudalismo.

Muitos séculos depois, foi justamente o que ocorreu sob o Império, quando a economia escravista atingiu seu limite e entrou em crise. Os escravos foram libertados, mas “amarrados” às terras como servos (colonii). Se isso houvesse acontecido antes, é possível que o desenvolvimento da economia e da cultura procedessem mais rapidamente; e, assim, a humanidade poderia ter sido poupada dos horrores da Era das Trevas.

No entanto, estou apenas especulando. O fato é que essa insurreição não prosperou, e não poderia prosperar por uma dúzia de razões. Marx e Engels explicaram, no Manifesto Comunista, que a luta de classes esteve presente em todas as sociedades que já existiram:

“Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que acabou sempre ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em conflito”.

O destino do Império Romano consiste em um exemplo notável da segunda variante. O fato de que os escravos não se ligaram aos proletários das cidades foi um dos principais motivos do fracasso da rebelião. Enquanto o proletariado continuasse a apoiar o Estado romano, a vitória dos escravos era impossível. Mas o proletariado romano, ao contrário do proletariado moderno, não era uma classe produtiva. Era basicamente uma classe parasitária, que dependia de seus senhores ao mesmo tempo em que vivia do trabalho de seus escravos.

O insucesso da Revolução Romana é fruto desse fato. O resultado final foi o colapso da República e a ascensão de uma tirania monstruosa sob o Império. Assim, Roma foi conduzida aos poucos a um período de decadência interna e declínio social e econômico que levou, por fim, a um colapso violento rumo ao barbarismo.

A imagem de um grupo oprimido ascendendo com armas nas mãos e infligindo sucessivas derrotas ao exército mais poderoso do mundo forma um dos eventos mais incríveis e comoventes de toda a história. Em última instância, Spartacus fracassou. Talvez sua revolta estivesse condenada desde o início. Mas essa página gloriosa da história jamais será esquecida, contanto que existam homens e mulheres apaixonados pela justiça e pela verdade. Os ecos dessa revolta titânica reverberam pelos séculos e continuam sendo uma fonte de inspiração a todos os que, até hoje, insistem em lutar por um mundo melhor.

Tradução de Camila N.

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