Sobre o nosso viralatismo e sobre nos descobrirmos, de repente, ex-viralatas

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Perfeito dentro de campo

Franz Beckenbauer, maior ícone do futebol alemão, campeão do mundo como jogador e como treinador, foi suspenso por 90 dias pelo Comitê de Ética da FIFA por não cooperar com as investigações sobre a corrupção e de compra de votos no processo de licitação para os Mundiais de 2018, na Rússia, e de 2022, no Catar. Ele não pôde embarcar para o Brasil porque está proibido de assistir um jogo da FIFA pessoalmente por três meses. Se fosse com Pelé, e o brado em nossas redes sociais aqui no Brasil seria de imensa vergonha nacional e de intenso debate sobre a nossa integridade como nação. De novo, estaríamos nos estapeando digitalmente e reduzindo tudo a uma dualidade entre brancos/ricos/vilões, pobres/pardos/vítimas, governistas e oposicionistas, petistas e tucanos, coxinhas reaças e black blocs porra loucas. A gente não perde oportunidade de se atirar do precipício, em suicídio coletivo. Enfermidade que não acomete os alemães – felizmente para eles.

É claro que há muitas falhas. Já sabíamos. E essa boa matéria do The Telegraph mostra bem isso: “Dentro do campo, tudo está perfeito. Fora do campo, tudo poderia ser melhor”. Para eles, a atmosfera e o futebol ganham um “A”. Já os estádios e a infraestrutura merecem um “D”.

Recusar o viralatismo não significa negar as falhas, que são várias, nem de se acomodar diante delas só porque não somos os únicos a falhar. Mas achar que somos sempre a pior coisa que já surgiu sobre a Terra também não vai nos levar a lugar algum. Essa matéria nos ajuda a babar um pouco menos na gravata. E isso é bom – inclusive porque cravar sorvetes na testa não vai nos ajudar em nada.

O depoimento de um brasileiro que mora nos Estados Unidos e que está vendo tudo – a Copa e o Brasil – lá de fora joga um pouco de luz sobre essa discussão:

Fan Fest em Natal
Fan Fest em Natal

“Acho que o brasileiro em geral não entende a dimensão da exposição que o país já começa a receber no exterior. Acabo de assistir as primeiras duas horas de Copa na ESPN americana, ao vivo do Brasil. A ESPN americana mandou duas dezenas de jornalistas e personalidades. Eles tem um estúdio montado na praia de Copacabana e, além dos debates entre os comentaristas, tem mostrado dezenas de clipes sobre os mais variados assuntos brasileiros. Tudo filmado em lindas cores e imagens superproduzidas. O que os americanos estão mostrando é um espetáculo. Cada vez que volta de um intervalo eles mostram um desses pequenos filmes de alguns minutos mostrando algum aspecto do Brasil e do seu povo. Em um clipe mostraram um buteco no centro do Rio. Num outro filme, mostraram a história de como a famosa música Garota de Ipanema foi criada. Em outro clipe, enfocaram a famosa caipirinha. A ESPN contratou um artista de rua do Rio para todo dia pintar uma imagem significativa daquele dia num paredão enorme em Copacabana… E também contrataram um músico brasileiro para todo dia mostrar um pouco da música brasileira aos espectadores.

“Então não é só futebol. E olha que ainda tem 11 outras cidades pra eles mostrarem. Com certeza eles já devem ter feitos imagens de Porto Alegre, de Natal, de Cuiabá. A gente fica fazendo barulho sobre dinheiro gasto em estádio em vez de hospital ou escola e não está enxergando a outra parte da história. Em duas horas a ESPN já botou água na boca de milhares de turistas americanos que já estão se arrependendo de não terem ido ao Brasil para a Copa. Até eu já estou me arrependendo disso ao ver o Alexi Lalas e tantos outros curtindo o Rio. Agora imagina a ESPN, ou emissoras equivalentes em todos os países do mundo, fazendo isso todo dia por 31 dias! Quantas milhares de horas de TV não serão usadas para falar do Brasil e destacar suas belezas? Quanto custaria comprar essas milhares de horas de publicidade mundo afora? Isso sem falar em jornais, revistas e internet.

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Copacabana

“Essa é a hora, para o bem do país, não a joguem fora. Sinceramente acho que nós não estamos conseguindo pensar fora da caixa. Ficamos com esse chororô como se nossas carências fossem culpa da Copa! Aqui nos Estados Unidos, como em qualquer país, nunca tudo estará perfeito. Aqui também falta um monte de coisas. Um Brasil sem Copa não teria mudado absolutamente nada. A copa vai é AJUDAR. Pela primeira vez na história do Brasil o mundo inteiro estará olhando para o nosso país. E vendo imagens maravilhosas como essas que a ESPN está mostrando aqui nos Estados Unidos. O Brasil poderia e DEVERIA facilmente arrecadar todos o bilhões gastos na Copa, todo ano, em turismo. Mas para isso temos que parar de mostrar a roupa suja para os gringos e começar a mostrar o lado bom do Brasil, como fazem todos os outros países.”

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Eu tendo a concordar com esse jeito de ver as coisas e de reagir a elas.

A Vice, no entanto, apresenta o outro lado da moeda, o dos confrontos nas ruas do país da Copa: “Contra a Copa: The Other Side of Brazil’s World Cup”. Dizem os americanos: “Embora possa ter parecido uma boa ideia receber a Copa do Mundo 2014 da FIFA no Brasil – um dos países mais obcecados por futebol no mundo – protestos sociais tem varrido o país na sua preparação para o evento. O governo brasileiro está gastando um valor estimado em 14 bilhões de dólares no torneio, fazendo desta a Copa do Mundo mais cara da história. Isso tem ultrajado a muitos brasileiros que veem o governo como corrupto. Eles estão vendo grandes quantidades de dinheiro sendo gastas em estádios de futebol e em policiamento enquanto políticos ignoram os quadros endêmicos de pobreza e de demandas sociais que envolvem o país”.

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Ou seja: o mundo está vendo o futebol e a alegria e a festa e os gols. Mas também está acompanhando, na paralela, o que acontece fora do perímetro da FIFA. O Brasil acontece nesses duas realidades.

BENZEMA E A MARSELHESA

Benzema não veio ao Brasil a passeio. É um 9 ferino, preciso, grande finalizador. Não toca muito na bola, não faz firula. Dentro da área, é um minimalista, na escola de Romário. Só que com o dobro do tamanho. Recebe e arremata. Letal, já marcou dois na partida de estreia, e vai dar o que falar.

Com relação à não execução dos hinos nacionais da França e de Honduras, no Beira Rio, na primeira falha importante da Copa até aqui, o jornalista Celso Miranda escreve o seguinte: “não sei se foi um problema com o sistema de som, mas o Beira Rio não tocou os hinos e acabou poupando os franceses de uma das principais polêmicas que tem envolvido sua seleção nos últimos anos: alguns jogadores – o caso de Karim Benzema é só o mais famoso, já que Nasri não foi chamado e Ribéry foi cortado – não escondem que nunca irão cantá-lo por conta da letra. Argelinos (como Zidane e Benzema), marroquinos e descendentes de outros territórios africanos ocupados pelos franceses, principalmente os muçulmanos, que eram chamados sarracenos (os “impuros”), se recusam a cantar a Marselhesa por identificá-la como a música das tropas que perseguiam e matavam seus antepassados”.

Ainda não se sabe em detalhes o que determinou a pane no sistema de som do estádio, que havia sido testado horas antes e que apresentou problemas 8 minutos antes de as equipes entrarem em campo.

MESSI E O MARACANÃ

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Falcão, quando eu o entrevistei, no final de 2011, para a extinta revista Alfa, da Abril, me disse que nunca mais tinha jogado futebol depois que parou. Ele me disse que nunca se divertiu com o futebol, porque sempre jogava para ganhar. Detestava perder e o que importava era vencer. Disse, inclusive, que precisava sentir um pouco de raiva para jogar bem. Quem lembra do pique de Falcão depois do seu gol contra a Itália, na Copa de 82, ou depois do gol contra o Palmeiras, nas semifinais do Brasileirão de 79, ou contra o Vasco, na finalíssima desse mesmo campeonato, ou depois da tabelinha de cabeça com Escurinho, na semifinal do Brasileiro de 75, que resultou talvez no gol mais bonito da história do campeonato nacional, consegue imaginar o que ela estava sentindo e o que estava extravasando ali.

Zico era outro que crescia em momentos cruciais, movido por uma espécie de ira santa. Pense no gol nos últimos minutos da partida contra o Grêmio, na primeira final do Brasileiro de 82, que o Grêmio vencia por 1 a 0 em pleno Maracanã. Pense, no ano anterior, na partida contra o Cobreloa, pela Libertadores – quanto mais apanhava, mais Zico jogava. Ou na final do Interclubes, em Tóquio, alguns meses depois, quando alguns jogadores do Liverpool declararam nunca ter ouvido falar do Flamengo. Tomaram 3 a 0 sem ver a cor da bola, no que é considerado o melhor primeiro tempo de um time em todos os tempos. No comando daquele Flamengo mágico, um Zico mordido, com sangue nos olhos.

Ontem, quando o Maracanã ensaiava um vaia a Messi e à Argentina, pelo futebol chocho apresentado por La Selección contra a Bósnia, Messi, na tradição de Falcão e de Zico, pegou a bola, talvez um pouco irritado consigo mesmo e com seus companheiros, e com aquela situação em geral, que marcava sua estreia no templo maior do futebol, no coração mítico do futebol brasileiro, maior rival da Argentina no universo da bola, e entrou na diagonal, defesa adentro, deixando cinco para trás, e marcando o seu. Foi um lampejo de gênio num jogo que, de outro modo, passou longe do que se espera do futebol de Messi e da Argentina. Calou o Maraca. Trocou os muxoxos por aplausos – inclusive dos brasileiros presentes. Penso que o combustível para aquela arrancada de Messi foi sonoro, uma combustão interna gerada a partir do que chegava a ele das arquibancadas. Lembremos disso numa eventual final contra los hermanos – tratemos bem o Messi, para que ele não invente de nos tratar mal.

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