Seja burro!

Depardieu como o conde

Camila é fascinada por O Conde de Monte Cristo, de Dumas. “É o melhor livro que li na minha vida”, diz ela. A idade dela é pouca, mas os livros que ela já leu são muitos.

O fascínio pelo conde e sua saga vingativa levou-a  procurar os filmes que nasceram da história. Ela encontrou três, e mais uma animação japonesa. Viu todos.

Ficou irritada sempre. O motivo é que mudaram, todas as vezes, a história. Personagens novos, final diferente, esse tipo de coisa. A adaptação que mais a agradou, ou menos a incomodou, é uma minissérie francesa de 1998 que estamos vendo juntos nestes dias, em que Depardieu é o conde.

O que têm feito com Dumas me lembrou uma história de Nelson Rodrigues. Os que são próximos de mim sabem quanto gosto de citá-la.

Irritada com as mudanças no romance de Dumas

Nelson Rodrigues, apenas como preâmbulo, foi o maior autor de diálogos do Brasil. Teria feito fortuna como roteirista se tivesse nascido nos Estados Unidos. Esse talento é especialmente claro em suas peças. Os personagens – e este é o segredo dos grandes diálogos – falam coisas inteligentes e espirituosas sem que nada pareça forçado.

Pois uma vez um autor escalado para atuar numa peça dele decidiu melhorar Nelson Rodrigues. Mexeu nas falas que lhe cabiam. Recebeu a seguinte recomendação, instantaneamente imortalizada pela força, clareza e graça: “Seja burro, seja burro!”

No jornalismo, a compulsão em reescrever leva pessoas a mexer automaticamente em textos prontos para serem publicados. Fiz isso no começo de minha carreira de editor. Depois entendi que estava errado. Mudei e preguei às equipes com quem trabalhei que prestassem atenção nisso. Que guardassem as energias para trabalhos que acrescentam alguma coisa às revistas, e não perdessem tempo com alterações inúteis em textos. (Não é à toa que repórteres costumam detestar editores.)

Quanto a Dumas, tenho para mim que se ele pudesse falar com os diretores e roteiristas que mexeram em sua trama diria a todos eles: “Sejam burros!”

Um dos dramas sinistros da humanidade é que queremos, sempre, parecer inteligentes — mesmo quando não há nenhuma razão para isso.

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