Santiago e as tragédias anunciadas nos protestos

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A Justiça decretou a prisão do homem suspeito de acender o rojão que atingiu o cinegrafista Santiago Andrade.

Santiago estava trabalhando. Estava em pé numa praça, gravando as imagens do conflito deflagrado durante o protesto contra o aumento das passagens de ônibus quando foi alvejado na cabeça.

Santiago Andrade não tinha “inclinação” para nenhum dos lados ou participação ativa de nenhuma espécie. Sua esposa afirmou: “Ele não estava fazendo um trabalho para ele, estava fazendo um trabalho para o mundo”. Sua morte é absurda. Ainda que a tragédia seja um tanto anunciada, é revoltante sua confirmação.

E por que anunciada? Por que o acirramento dos ânimos entre manifestantes, autoridades policiais e imprensa vem num crescendo?

Todos têm errado. Uns mais, outros menos, mas todos.

A imprensa tem boa dose de culpa. Com suas coberturas parciais e repressoras, vem desde junho classificando a tudo e a todos como “vândalos e vandalismo” e mostrando o reflexo no trânsito da cidade. Pouco importa a pauta e pertinência do protesto. Toda a cobertura sempre começa pelo final: “Terminou em quebradeira…” Nunca se noticia como nem porque começou. Os repórteres das grandes emissoras sofrem na pele a fúria da turba contra essa cobertura simplista e tendenciosa. Os editoriais de hoje em homenagem e de repúdio à morte de Santiago são tão óbvios quanto cínicos.

A polícia é obviamente outra grande responsável pelo agravamento do quadro. Com suas atuações instáveis, variando entre a violência exacerbada à apatia total, nas vezes em que reprime é com vigor digno dos 300 de Sparta. Encurralando manifestantes, atropelando com motos uma garota já ferida, lançando bombas e desferindo tiros de balas de borracha ou até mesmo com armas de fogo em situações totalmente desnecessárias e sem nenhum critério, com seus infiltrados pouco inteligentes, com seu comportamento ilícito de não portar a identificação nas fardas que a coloca em posição de paridade com as práticas condenáveis cometidas pelos criminosos.

Também os manifestantes cometeram seus excessos. Após as grandes manifestações, minúsculos agrupamentos de 20 a 30 pessoas com frequência interditavam grandes avenidas e até estradas, saturando a paciência dos não-manifestantes, desgastando a simpatia por toda e qualquer causa. Impedir a atuação da imprensa que não tenha o viés ativista também em nada colaborou para uma mudança de postura daquela mesma mídia “corporativista”.

Em resumo, imprensa parcial, ativistas censores e polícia dada a abusos. Quando todos passam um pouco da linha ao mesmo tempo, não há outro resultado possível que não o de uma tragédia como a que tirou a vida de Santiago.

2014 começa com um semblante carrancudo. Em apenas duas grandes manifestações (e nem tão grandes assim), uma em São Paulo e outra no Rio, temos um manifestante baleado com dois tiros e um cinegrafista morto. Imagina na Copa.

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