“Roubam, matam e humilham”, diz ao DCM homem que sobreviveu a um ataque de piratas no Pará. Por Eduardo Reina

Longas distâncias sem comunicação, alvo fácil dos piratas

O assunto ganhou destaque na mídia na semana passada porque uma família de cidadãos dos Estados Unidos, o casal e dois filhos, havia sido vítima dos piratas que assaltaram uma balsa na Baia de Marajó, entre a ilha do mesmo nome e o Pará. Mas o problema é mais grave do que se pensa. São rotineiros os assaltos de piratas a todo tipo de barco nessa região. A falta de comunicação entre os barcos, passageiros e a terra firme, bem como a quase insignificante fiscalização e quase inexistente policiamento, deixa passageiros e barqueiros ficam à mercê dos bandidos. As ações piratas chegam a demorar mais de duas horas entre a abordagem e os assaltos dentro das embarcações. Os assaltantes matam aqueles que esboçam reação, e fogem impunemente.

Marajoaras reclamam da falta de segurança e reivindicam bases de policiamento ao longo do rio e melhoria urgente na comunicação via rádio, uma vez que os telecomunicadores dentro das embarcações ficam mudos em muitos trechos.

No último domingo, dia 5 de novembro, um ribeirinho foi assassinado durante ação de piratas no rio Tajapurú, altura do município de Breves (PA), e levaram toda a renda que tinha conseguido com a venda de vegetais – R$ 5 mil – mais uma carga de açaí e farinha.

O genro da vítima, Eri Marques, disse que seu sogro foi humilhado antes de ser baleado. Contou ainda que todos estão cansados de tanta violência e, se nenhuma providência for tomada pelas autoridades, a população local fará “justiça com as próprias mãos”.

Morador na cidade de São Sebastião da Boa Vista, na ilha do Marajó, João Ribeiro fala sobre as dificuldades de comunicação nesses rios caudalosos, utilizados como uma verdadeira via de transporte – a única – entre as cidades da região. É por barco que a população local se desloca de um município a outro. É por essa hidrovia que passa toda a produção da Zona Franca de Manaus.

Os marajoaras reivindicam a instalação de uma base de segurança pública na localidade de Antônio Lemos, no rio Tajapuru. Trata-se de uma reivindicação antiga. Hoje, quem passa de barco pelo Tajapuru – desde a entrada da boca do Tajapuru até a saída no rio Amazonas – só consegue se comunicar através dos rádios em uso dentro dos barcos.

Existe comunicação via telefonia móvel no percurso que vai de Belém até o município de Breves. Ao longo do rio há torres de transmissão em Belém, Barcarena e Albrás, Ponta de Pedras, Muaná, Limoeiro do Ajuru, São Sebastião de Boa Vista, Curralinho, Bagre e Breves. Depois dessas torres se viaja pelo rio Tajapuru, em média, 12 horas sem nenhuma área com sinal de celular. Tudo isso facilita a ação dos piratas.

“Por outro lado, de Antônio Lemos até o Rio Amazonas, o tempo para uma abordagem policial e questão de 20 minutos em média, enquanto de Antônio Lemos até a boca rio Tajapuru, o tempo gasto – dependendo da velocidade da embarcação – fica entre duas e três horas. Esse tempo todo é suficiente para que os piratas possam desaparecer sem serem pegos ou localizados”, explica.

Raul, na foto tirada antes do ataque — por isso, ainda estava alegre

O DCM entrevistou uma pessoa que foi vítima dos piratas há cinco meses. Raul Tavares, de 75 anos, viveu momentos de pavor e conta os detalhes do crime — além do roubo dos passageiros, os bandidos mataram a tiros o dono do barco.

 

 

Ele estava na embarcação Oliveira Nobre, no dia 6 de junho, uma terça-feira, de madrugada, quando foi surpreendido pelos assaltantes.  Segue o depoimento do senhor Raul Tavares:

Eu vivi um assalto de piratas. Eu viajava como passageiro na embarcação Oliveira Nobre. Em nosso município e em todo arquipélago de Marajó, o transporte de passageiros é realizado por embarcações desse porte. Via de regra, de madeira. Ultimamente muitas delas já substituídas por navios de ferro, e por balsas, os ferryboats.

Eu viajava da capital para o meu município. Ele faz essa linha. Todo mundo se conhece, é uma cidade pequena. Eu viajava sossegado, dormindo. E lá pelas duas horas da madrugada eu levantei para ir ao banheiro, tirar água do joelho, e entrei no banheiro. Quando entrei no banheiro, eu escutei uns baques. Parecia que estavam batendo na parede da embarcação. Mas eram disparos de arma de fogo.

Quando a voadeira com os piratas se aproximou da embarcação, o proprietário saiu do camarote onde estava deitado, no segundo piso, no segundo convés da embarcação. E quando ele viu a voadeira, ele falou para o piloto que estava no timão, ‘”são piratas”.

Aí os caras (os piratas) atiraram. Mataram o cidadão e invadiram o barco. Eu estava no banheiro.

Quando eu saí do banheiro, fui recebido por dois assaltantes. Cada um com uma arma. Arma longa. Talvez, se eu tivesse 35 anos, 40 anos, com a agilidade que eu tive, hoje não tenho mais, mas se fosse nessa época, quem sabe, eu teria reagido porque o espaço era pequeno e eles estavam com armas longas. Seria difícil eles atirar. Mas não tinha outro jeito. Com 75 anos não podia fazer nada. O assalto foi dia 6 de junho.

Eu me rendi. Eles determinaram que eu deitasse no chão, no convés. Me deitei. Mandaram eu arriar a cabeça. E logo veio um amigo meu. Obrigaram ele a deitar ao meu lado.

E aí saíram rendendo todo mundo, espancando, humilhando. E aí a coisa engrossa. É uma coisa triste.

Senhoras com crianças de colo tiradas da rede. A gente sempre viaja na rede. Quando invadiram botaram senhoras idosas, idosos, todos no chão.  Fizeram de tudo.

Lá pras quatro e meia da manhã deixaram a embarcação. Foi aí que soubemos que o cidadão dono da embarcação tinha sido assassinado.

Eu por sorte, tinha colocado o meu celular para carregar embrulhado no meu chapéu no teto da embarcação, no meio dos coletes salva vidas. Eles deixaram meu celular.

Quando vimos que eles haviam ido embora peguei meu celular e liguei para um colega meu, fazemos parte de uma equipe de uma rádio comunitária. Imediatamente ele colocou no ar, avisou a polícia. Tenho um filho que é policial. Comuniquei a ele. Três ou quatro dias depois a PM prendeu os assaltantes, que estão presos até hoje. Há poucos dias tiveram negado pela Justiça um mandado de soltura.

É muito complicado a gente ver um cidadão, uma cidadã ser humilhada, espancada. Eu vivi isso e falo com propriedade: é muito triste, é muito humilhante, é muito ruim.

Tenho amigos que viveram a mesma história na região do Arari, rio Arari, lago do Arari. Na Costa Atlântica, pescadores artesanais também sofrem com essa situação. É muito triste. Em toda baia do Marajó a gente não tem segurança, principalmente as pequenas embarcações.

Ouvi de um cidadão a conversa de que os piratas chamaram ele para trabalhar juntos e levantaria R$ 2 mil por semana. Ele dizia que levantava R$ 80 por semana como carpinteiro. Isso é complicado. Fica difícil.

O problema nosso maior é a extensão territorial. O arquipélago do Marajó é um conjunto de ilhas enormes, formado por 16 municípios, 13 somente na ilha. A ilha de Marajó impede que o oceano Atlântico invada o rio Amazonas. São incontáveis cursos de água. Rios largos, grandes, extensos, igarapés, furos. É muita coisa.

Esse tipo de crime recrudesceu nos idos de 1997, 1998. A questão social é muito séria. É no Marajó que estão os municípios com menor índice de desenvolvimento humano.

O DCM procurou a Capitania dos Portos da Amazônia Oriental, que não se pronunciou.

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