Rio 450 anos: cidade maravilhosa só para quem tem dinheiro

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O texto abaixo é de João Vicente Gutierrez Mendes:

Nasci no Rio, cresci no Rio, vivo há 30 anos no Rio. Nunca morei em outro lugar. Minhas experiências internacionais não são tantas. Talvez por isso, apesar de concordar com alguns argumentos que morar fora “abre a cabeça”, posso dar um embasado relato sobre a minha experiência e a minha visão (obviamente) sobre o município que comemorou 450 anos no ultimo dia 1 de março.

Vim ao mundo e me desenvolvi em um bairro da Zona Sul da cidade. Graças ao esforço dos meus pais pude frequentar um ótimo colégio particular durante toda a minha vida de estudante. No meu bairro, tinha uma rotina privilegiada com adoráveis idas a pé para a escola e para os treinos de natação no Fluminense Football Club.

A vida boa não acabava na caminhada. Pelo capital social e as amizades desenvolvidas no colégio católico, pude frequentar pessoas que tinham casa em Búzios, Itaipava, Petrópolis, Teresópolis e por ai vai.

Fui a festinhas em casas na Gávea, Jardim Botânico, Alto Leblon. Festões em Santa Teresa. Reuniões com a galera na praia de Ipanema e peladas em campos de grama sintética na Barra. Fui também a variados programas na Lapa após a revitalização do bairro. Roteirinho completo garoto branco zona sul escolarizado em escola privada na área mais rica da cidade.

O máximo de contato com algo ou alguém de fora do meu “mundinho” eram os relatos da adorável pessoa que trabalhava na minha casa e ajudava os meus pais, trabalhadores honestos assalariados, a cuidar de seus 3 filhos.

Também tinham algumas tardes no Maracanã para sofrer com o Botafogo.

Na Faculdade, ao contrário da maioria dos camaradas que foram estudar em uma renomada instituição católica de ensino superior localizada na Gávea, ingressei na educação federal.

Dentro do ensino superior público, “conheci” um lugar totalmente diferente do qual eu me situava: o Rio de Janeiro que eles viviam.

Moradores da Penha, Olaria, Madureira, Realengo, Bangu, Deodoro, Marechal Hermes, Campo Grande, Ilha do Governador, Irajá, Pavuna, Paciencia, Engenho de Dentro, Meier, Cachambi, Encantado, Vila Kosmos; eles “cresciam” o Rio de Janeiro para mim a cada conversa.

Pessoas que pegavam 1h/1h 30 minutos de condução para ir e outras 1h/1h 30 minutos para voltar as suas casas.

Pegar duas conduções então, só se for para viajar.

Aquilo não fazia sentido para mim. Eu demorava no máximo 30 minutos para chegar a cidade universitária, localizada no caminho para o aeroporto internacional.

E no fim de semana, eles me diziam que vinham para a Lapa e para as praias da Zona Sul se divertir. Muitos iam ver o mar na Barra e no Recreio. Mas muitos também vinham para o Aterro do Flamengo andar de bicicleta ou dar uma caminhada na Lagoa.

Estágio? Centro, Zona Sul e Barra.

Bem empiricamente, comecei a realizar que a mobilidade da cidade se resumia em concentrar a maioria dos habitantes em um único sentido: Centro, Zona Sul e Barra. Não à toa é onde se encontra o mar e a natureza.

Imagine: 80 a 90% da população de uma metrópole se dirigindo todo o dia a 10% do território da cidade.

Não tinha como dar certo. Até poderia se tivéssemos investido em metrô e não em malha rodoviária a medida que a cidade ia crescendo. Tanto potencial desperdiçado. Tantas chances não aproveitadas.

Quando comecei a trabalhar, vi que a coisa era mais complicada.

Um grande número de pessoas de outros municípios também vinham para o Rio trabalhar. Para o Rio não. Para a Zona Sul, Centro e Barra, já incluindo o Recreio dos Bandeirantes nessa.

Na segunda feira, nos momentos de conversas sobre amenidades da vida, mais uma “revelação”: muitos moradores de Duque de Caxias, Mesquita, Nova Iguaçu e São Joao de Meriti também vem no fim de semana para curtir a praia da Barra, Recreio, Copacabana, Leme, Leblon e Ipanema.
Vem para show na Fundição Progresso, Circo Voador e no antigo Metropolitan (hoje alguma coisa Hall). Vários vem tomar cerveja na mureta da Urca, com direito a selfie e a Baia de Guanabara ao fundo.

E agora, em um momento de construir família (lembrando que sigo o “roteirinho” garoto branco classe média Zona Sul), sinto que o pior e talvez a chave de toda a questão ainda está por vir: tentar arrumar um lugar para morar.

O grande tapa na cara.

Alguns conhecidos que deram sorte ou casaram cedo, conseguiram comprar ou financiar apartamentos que em 2008/2009 valiam R$ 300.000,00 e hoje valem cerca de R$ 900.000,00.

Alugueis que custavam R$ 1.000,00 ate 2009, hoje saem por R$ 2.500/3.000,00.
O preço triplicou em 6 anos.

A renda das pessoas não multiplicou nesse período. Isso é economicamente impossível. Um dinheiro que não existe.

O que aconteceu com a cidade então?

Ela está mais limpa, mais segura, mais rica ? Dá mais suporte aos cidadãos com melhores escolas, creches, transporte de massa e hospitais? O Estado está mais presente e mais forte?
Não.

Temos sim um maior número de carros nas ruas, muitas parcerias públicas privadas que transformaram partes da cidade em canteiros de obras e UMA estação de metrô a mais em nossa “via tripa” subterrânea.

Algumas construções como BRTs, Transcarioca e Arco Metropolitano estão tornando a mobilidade menos pior.

Mas são como transfusões de sangue em um paciente que sofre de hemorragia constante.

Essas obras não estão expandindo a cidade em direção à novos polos, desenvolvendo consequentemente outras localidades. São aparelhos para tornar a vinda para o trabalho, na zona sul, centro e Barra, menos coisa de gado.

Band aid para ferimento à bala. Balas que continuam a cruzar os ares das comunidades pacificadas pela política de segurança das UPPs.

UPPs que formam um caminho que protege o corredor hoteleiro da zona sul e centro da cidade, desde o aeroporto internacional até as instalações do parque olímpico na zona oeste.

Olimpíadas 2016. Talvez o grande disparador de toda uma crise sobre a qual não se fala.
O que será que vai acontecer depois?

Em 2009, após o anuncio da “vitória” brasileira, tivemos os primeiros sopros que enchem a bolha carioca.

Lembra do preço dos apartamentos?

Hoje vejo que a zona sul não só dita modinhas, como dita os preços: se aumenta na zona sul, aumenta em suas imediações.

E assim se propaga. Assim se repercute. Assim se reverbera. Assim se afeta a cidade. É assim que ela se move. Sem se mexer. Sem se coçar.

A zona sul imóvel, fincada no coração do que existe de melhor no Rio, a Natureza; “dita” o jogo de toda uma cidade para atender suas demandas e necessidades. Aleijando e sucateando uma grande parte de seu território e encarecendo a vida de tantos.

A cidade não para, a cidade só cresce.

Mas a cidade não se move.

Paramos no tempo. Paramos na beleza do que já estava aqui e não fizemos nada.
Somos parasitas extraindo o “puro suco” de um povo.

Difícil achar linda uma cidade que não avança, não decola, não cria novos caminhos. Melhores caminhos para todos e não para poucos.

Maravilhosa não é um adjetivo compatível com uma cidade que se movimenta em direção a um único sentido: onde está o dinheiro.

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