Resenha: Arco de Virar Réu, de Antonio Cestaro. Por Luísa Gadelha

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O que é a insanidade? Existe uma conexão entre a perda da razão e afloração da criatividade? Qual seria o limite entre esses dois estados?

Em Arco de virar réu, primeiro romance do escritor paranaense Antonio Cestaro (Tordesilhas, 151 páginas), acompanhamos o narrador por um labirinto incontornável e perigoso dos liames entre a lucidez e a loucura, a realidade e o delírio, em que o inconsciente do protagonista está “a céu aberto”, nas palavras de Lacan.

O narrador, cujo nome só ficamos sabendo ao final do pequeno romance, é um homem de meia-idade, historiador interessado em antropologia, mais especificamente nos rituais dos índios tupinambás – sobretudo o canibalismo -, preso a um núcleo familiar composto de personagens perturbados – o pai ausente, a mãe amorosa com problemas de alcoolismo, o primo usuário de drogas e, principalmente, o irmão Pedro, diagnosticado com esquizofrenia na adolescência, doença que vai afetar e influenciar profundamente o narrador. A irmã Clara parece ser o único porto de sanidade na família desestruturada.

Pedro vive em um mundo à parte, de guerras e conflitos, desde que ganhou um joguinho de estratégias bélicas, sempre em estado de alerta, guiando os companheiros em um combate infindável, cujos discursos, em seus devaneios, beiram a poeticidade.

À medida que a saúde mental de Pedro deteriora e ele se desconecta da realidade, é o próprio protagonista que passa a delirar e alucinar, tornando-se incapaz de distinguir os sonhos do real, obcecado com os índios tupinambás, vivendo até um curioso pesadelo num futuro apocalíptico onde o canibalismo serve como “recurso para reciclar corpos e alimentar a superpopulação”.
Chega um ponto em que o narrador não sabe mais o que é real ou o que é fruto de sua mente “doente, que ignora limites e poderes, e uma encenação ordinária que impõe toda sorte de dúvidas temperadas com dores de intensidades variadas”, e muito menos nós, leitores. Podemos confiar nesse narrador imaginativo?

Aqui, a loucura, que permeia toda a narrativa, é vista sem romantização nem mistificação, mas sim como um suporte para a criatividade do narrador, que se utiliza dela para escrever seus sonhos, devaneios e ideias. O medo de perder a razão pode ser contornado em atividades artísticas – aqui, especificamente, a escrita. Em dado momento o primo drogado de Pedro e do narrador deseja aproveitar as falas de Pedro para um curta metragem experimental, “com foco na paranoia criativa de personagens de relevo no mundo das artes”.

Dizem que a insanidade se origina de uma falta. Que falta é essa vai depender da história pessoal de cada um. Como diz Bukowski em um de seus poemas, “tem um lugar no coração que nunca será preenchido e nós esperaremos e esperaremos nesse espaço”.
O que fazemos com esse vazio pode se transformar em um apoio para suportar a realidade, antes que a razão nos traia, muito embora sejamos todos “um pacote de incertezas a ocupar raciocínios, suposições e juízos, até que os levantamentos e as constatações sejam suplantados pela exigência do tempo que avança obstinadamente a devorar e transformar tudo o que existe”.

O romance de Cestaro cumpre magistralmente o papel desse algo a que podemos nos agarrar, nos presenteando intimamente com um conjunto de reflexões, considerações e ponderações sobre a loucura, travestido de história. É o papel da literatura. Nas palavras do narrador, “e, quando em crise, a sensação perturbadora de que já não me basto me faz buscar em vidas e histórias alheias os significados e as razões para seguir vivendo”.

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