Quem é o humorista francês proibido de se apresentar por “incitar o ódio”

DIEUDONNÉ

 

O comediante francês Dieudonné está proibido em seu país.

Acusado de racista e antissemita, foi impedido de fazer seu show em Nantes, em 6 de janeiro, por uma determinação que partiu do próprio Ministro do Interior Manuel Valls, na qual alega “incitamento a ódio racial”. “Ele não é mais um comediante. Está fazendo proselitismo ideológico”, disse Valls.

Não é de agora que Dieudonné sofre esse tipo de acusação. Já foi condenado oito vezes pelos mesmos motivos. No ano passado, inventou o “quenelle”, espécie de saudação nazista invertida, que foi adotada por facções de extrema direita e se tornou viral nas redes sociais.

Alguns de seus seguidores postaram fotos fazendo o quenelle em lugares como Auschwitz e a casa de Anne Frank em Amsterdã. Dieudonné (que em francês quer dizer algo como “oferecido por Deus”) nega ser o dono do quenelle, mas sua mulher entrou recentemente com um pedido para patentear a saudação. “Não sou antissemita”, diz ele. “Mas não digo que nunca serei. Existe essa possibilidade, mas por enquanto, não”.

Em 2012, Dieudonné estreou no cinema com um filme chamado “O antissemita”, supostamente protagonizada por um personagem cômico — um nazista alcoólatra. O filme, produzido por uma instituição iraniana, foi vetado no festival de Cannes devido às suas implicações ideológicas. E, nesse mesmo ano, as quatro apresentações que faria em Montreal, Canadá, foram suspensas devido a manifestações de grupos judaicos.

São inegáveis suas ligações com personalidades com ideias racistas. O ex-candidato à presidência da França, Jean-Marie Le Pen, conhecido pela sua xenofobia, é padrinho de uma das filhas de Dieudonné. Ou Robert Faurisson, professor francês, defensor da ideia de que o holocausto, a câmara de gás e os campos de extermínio nunca existiram . O próprio Dieudonné, numa apresentação em 2008, classificou as lembranças do holocausto como um “memorial pornográfico”.

O comediante, no entanto, não assume ser racista. “Pode-se fazer piadas de tudo, menos sobre judeus”, reclama ele. “Sou apenas contra o sionismo”.

Embora seja reconhecido como um bom comediante, suas apresentações têm adquirido um tom mais sério, mais panfletário. Como no quadro “Palestina”, em que o personagem é um terrorista discursando antes de explodir a si mesmo em protesto contra Israel. “Sou apenas um bobo da corte que põe o dedo na ferida dos nobres, que são os judeus”, diz ele.

Por conta disso, faz provocações como incorporar um rabino vestido de nazista ou humilhar um jovem usando pijama com a estrela amarela. Seu apetite por “agressões humorísticas”, como ele define, parece ser insaciável num país em que a liberdade de expressão é um direito fundamental, mas encorajar discriminação racial e negar um genocídio oficial é crime.

Independentemente das restrições legais que têm sofrido, suas apresentações tem sido rejeitadas pelo público francês: numa recente pesquisa do site Metronews, 54% dos entrevistados têm uma opinião negativa sobre ele; no entanto, 16% aceitam suas idéias.

O mais curioso é que Dieudonné M’bala M’bala, 47 anos, filho de mãe francesa e pai camaronês, começou sua carreira fazendo dupla com um artista francês judeu e defendendo idéias anti-racistas, principalmente aquelas que envolviam a situação dos imigrantes na França. Em 1997 chegou a concorrer a um cargo legislativo com um discurso anti-racista, mas não se elegeu.

A partir de 2000, começou uma carreira solo fazendo piadas agressivas aos seus oponentes e defendendo ideias políticas. Foi quando começaram as críticas ao sionismo, colocando-o constantemente no centro de controvérsias e de inúmeros processos em que foi penalizado com multas vigorosas, de até 30 mil euros.

Um exemplo do seu humor contestado é o quadro Shoananas (shoah é holocausto, ananas é abacaxi), em que faz palhaçadas, à la Danilo Gentili, em torno das memórias do holocausto.

 

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