Quem é o homem que, sob tortura, foi obrigado a pedir perdão aos caminhoneiros. Por Joaquim de Carvalho

Marcos Bono, vítima da tribunal dos caminhoneiros: político progressista, foi punido por expressar sua opinião

É errado tomar a parte pelo todo, mas não se deve ignorar as vozes que emergem desse movimento dos caminhoneiros: a mensagem é retrógrada e muito perigosa, daí porque as centrais sindicais deveriam ter ponderado melhor antes de manifestar apoio a essa paralisação.

Um exemplo foi a agressão covarde a um homem na região de Araçatuba, interior de São Paulo, conforme mostram as imagens registradas por eles mesmos e colocadas na rede.

A vítima é Marcos Bono Machado. Ele foi professor, é comerciante, foi vereador em Avanhandava entre 2009 e 2012.

Na última eleição, Marcos Bono se apresentou como candidato a prefeito pelo PR, numa aliança com o PT, PC do B e outros partidos de esquerda ou centro-esquerda.

A página dele no Facebook mostra que é um crítico do golpe e costuma compartilhar mensagens de políticos progressistas, como o senador Humberto Costa e o deputado Carlos Zarattini, ambos do PT.

No dia 18 de maio, escreveu:

Tenho dó dos coxinhas , A LEI É BEM CLARA ,O POVO NÃO É BOBO , VAI DAR A RESPOSTA NAS URNAS, HJ A GASOLINA ALMENTOU MAIS UMA VEZ, SEUS FILHOS DA PUTAS , PEGA AS PANELAS QUE VOCEIS BATERAM PARA TIRAR A DILMA SOCA NO C?????????.

Não sei se é essa postagem que despertou a ira dos caminhoneiros que o submeteram a uma sessão de humilhação e violência física — levou um tapa e foi obrigado a pedir perdão de joelhos—, atitude que poderia ser interpretada como tortura.

Os agressores mencionam algo como manifestação do professor pela rede social. Está tudo registrado (vídeo abaixo), e se autoridades quisessem poderiam enquadrá-los. Mas, pelo que se vê, não existe disposição de fazer valer a Constituição brasileira.

O empresário Vittorio Medioli, que fez fortuna com o transporte de automóveis e é dono de uma das maiores transportadoras do Brasil, se sentiu à vontade para desafiar autoridades com um vídeo em que estimula a paralisação. “Estamos juntos”, diz.

Um comerciante de Sorocaba, dono de um loja de médio porte, colocou seus funcionários — cerca de 20 — para gravar um vídeo em que propõe que as lojas de todo o Brasil fechem em apoio aos caminhoneiros, para provocar um apagão fiscal no governo, e force mudanças.

O objetivo deles, portanto, é político.

Tanto o milionário Medioli, que é prefeito de Betim e até pouco tempo atrás era do PSDB, quanto o pequeno empresário de Sorocaba — que deve se julgar rico — cometem crime: paralisação, por iniciativa de donos do capital, é locaute, sabotagem.

A eles é que se somaram os caminhoneiros mais exaltados. E é preciso descobrir quem os sustenta.

Um equipe de TV mostrou uma camionete distribuindo víveres para os motoristas parados no acostamento.

Alguns caminhoneiros se declaram eleitores de Bolsonaro, outros defendem abertamente intervenção militar. Querem o MBL ao lado deles.

A cena do caminhoneiros agredindo o professor de Avanhandava lembra as manifestações no Sul do País, quando Lula esteve lá, em sua última caravana.

Não são tão numerosos, mas são muito barulhentos. No Sul, fecharam rodovias com caminhões e equipamentos agrícolas, alguns estavam armados. Bateram em mulheres em uma cidade, um deles usou chicote em outra.

Conseguiram impedir a entrada de Lula em Passo Fundo.

Causaram lesões graves em manifestantes em Chapecó, usando pedras. Protagonizaram agressões racistas contra apoiadores de Lula que são negros.

Deram tiros em ônibus da caravana — um dos disparos acertou veículo em que eu estava, dois metros distante da minha poltrona.

Com Lula preso, a violência continuou. No Paraná, um homem atirou contra o acampamento, feriu duas pessoas, uma com gravidade.

Ninguém foi punido por essas agressões, e, diante da fraqueza (ou cumplicidade) das autoridades, a violência tem aumentado.

No que diz respeito aos caminhoneiros, é preciso reconhecer: a reivindicação deles é justa. Mas há sinais de que não é uma manifestação por conquistas econômicas. Parecem querer derrubar o governo.

Infelizmente, no campo progressista, tem gente que se empolga com disposição dos caminhoneiros.

É um equívoco grave. A menos de cinco para a eleição, a queda de Temer agora é um passo na escuridão.

A direita não tem candidato viável, enquanto a esquerda dá sinais de vitalidade, com a força demonstrada por Lula.  Mesmo preso.

Todas as pesquisas mostram que Lula (ou o candidato que indicar) lidera as pesquisas de intenção de voto.

O tumulto institucional, nesse momento, só interessa a quem tem medo das eleições.

Os progressistas não precisam dos caminhoneiros para varrer Temer do Planalto. É pela força do povo, não pela truculência desse movimento.

 

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