Quem é o candidato de “esquerda” à presidência da Fifa

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Um candidato, considerado de “esquerda”, ameaça o poder da Fifa.  “De esquerda” talvez seja exagero da mídia internacional, mas é assim que o francês Jérome Champagne, de 55 anos, tem sido visto por suas ideias menos convencionais que dão base à sua candidatura à presidência da entidade.

Champagne, o primeiro candidato oficial para as eleições de 2015, considera que a Fifa tem uma imagem  “imperialista e autoritária” e questiona, por exemplo, a prática consolidada do “toma lá, dá cá” — o favorecimento que a Fifa oferece a confederações em troca de apoio e oportunidades de negócio, por exemplo. Ou então comissões designadas a executivos da entidade em negócios volumosos, como direito de transmissão dos jogos da Copa — cujo maior exemplo é o escândalo da  falida ISL, que produziu acusações contra João Havelange e Ricardo Teixeira. Champagne não considera essas práticas como ilegais. Mas reconhece que não são morais ou éticas e que devem ser evitadas em benefício da “transparência”. “Precisamos de uma Fifa diferente, mais democrática, mais respeitada, que se comporta melhor e produz mais”, disse ele, ao lançar sua candidatura.

Sob o slogan “Reequilibrar o jogo em um 21º século globalizado”, Champagne já tinha divulgado uma espécie de manifesto contra a gestão de Joseph Sepp Blatter, o atual presidente da Fifa, citando questões relacionadas à divisão de poder dentro da entidade, à corrupção, ao doping e ao uso da tecnologia. Acha injusto, por exemplo, a África ter o mesmo número de federações que a Europa (54) e ter apenas quatro postos no comitê executivo (a Europa tem oito) — o que chama criticamente de “direito divino da Europa”.

Também é a favor do uso da TV para resolver dúvidas de arbitragens e está inconformado com o desrespeito que jogadores têm tido com os árbitros — e propõe adoção do cartão laranja, que suspende o atleta do jogo por alguns minutos. Os poderosos da Fifa odeiam essas ideias “inovadoras”.

Champagne diz que a Fifa tem uma estrutura obsoleta, forjada pelo conceito “aristocrático britânico”, o que não chega a ser surpresa. Afinal, sempre houve uma disputa nacionalista na entidade entre franceses e ingleses. Mas essa crítica abra caminho para outras: acusa o todo-poderoso Comitê Executivo da Fifa de operar “barganhas” por meio de  “compromissos submetidos a interesses políticos de pessoas e administradores”.

É um discurso incisivo, responsável provavelmente por essa imagem “de esquerda” que a mídia europeia e americana vem rotulando a candidatura. Mas pode ser também uma estratégia eleitoral para fazer frente aos seus concorrentes, muito mais poderosos. O primeiro é o próprio Blatter, 77 anos, que prometeu, na sua última reeleição, em 2011, não se candidatar mais — o que agora parece descartado. À frente da entidade já há 15 anos, Blatter tem o apoio maciço da maior parte dos eleitores, ou seja, as confederações dos países da Europa Oriental, da Concacaf (América do Norte) e da África. O outro candidato é o presidente da Uefa, o ex-jogador francês Platini, que vem trabalhando produtivamente sua candidatura já há cinco anos tem apoio dos europeus.

Champagne corre por fora com seu discurso de oposição. Já conseguiu o apoio de Pelé — cuja opinião é respeitadíssima no mundo do futebol europeu, muito mais do que aqui. O rei gravou um vídeo no qual declara que “o futebol precisa de uma Fifa forte e democrática” e que “deve se adaptar ao mundo do sécul XXI”. Champagne carrega essas palavras como seu tesouro de marketing.

Ele é um candidato pouco convencional. Formado em Ciências Políticas, tornou-se diplomata de carreira e cumpriu missão em vários países, inclusive no Brasil, onde morou por dois anos, em Brasília, onde nasceu seu filho. Aqui, recebeu a  Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, entregue por Pelé quando era Ministro Extraordinário do Esporte. Foi para a Fifa quando Blatter se elegeu, ocupando vários postos executivos até que, em 2010, Jérôme Valcke, esse mesmo que é porta-voz da Fifa para a Copa no Brasil, puxou seu tapete numa disputa interna de poder. Fora da entidade, Champagne passou a se movimentar para a divulgação de suas ideias e, principalmente, para a sua candidatura. Ser um candidato “de esquerda” parece ser a sua melhor opção.

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