Prisão do piloto do Helicoca confirma que tráfico é indústria em que chefões não são incomodados. Por Joaquim de Carvalho

Rogério, o piloto, e a máquina: só vestígios

O flagrante do piloto de helicóptero Rogério Almeida Antunes terminou nesta madrugada, em São Bernardo do Campo. Ele foi preso ontem, juntamente com o irmão, Leonardo Almeida Antunes, motorista de Uber, e Luís Paulo Mattar Pereira, no hangar onde estava um helicóptero que pertenceria à organização criminosa PCC.

A exemplo do que aconteceu quando foi preso em flagrante com 445 quilos de cocaína no helicóptero da família do senador Zezé Perrella, em novembro de 2013, Rogério disse que foi envolvido na história.

“Ele disse que está tentando reconstruir vida, estava ao lado da namorada quando recebeu uma proposta de trabalho como piloto, coisa comum. Tratava-se de pilotar um helicóptero, do tipo em que é habilitado, do ponto A para o ponto B”, afirma uma das pessoas que ouviram sua versão.

Rogério não aceitou, no primeiro momento. “Ele se recusou, pois o serviço se daria por tempo que o atrapalharia de ir à escola”, afirmou.

No dia seguinte, segundo sua versão, Rogério recebeu nova ligação e aceitou. Quando recebeu o telefonema, estava ao lado da namorada. Ontem, era o dia de fazer a viagem e pediu ao irmão, motorista, que o levasse até o hangar, em Arujá.

Quando ele chegou a Arujá, os policiais já estavam lá. Contou a mesma história, mas não teve jeito. Foi autuado em flagrante.

O mecânico do hangar, William Costa de Laia, conseguiu convencer os policiais de que estava ali apenas para prestar serviço, sem nenhuma relação com a quadrilha que transportaria a droga, que seria ligada ao PCC.

Segundo a Polícia Civil, as investigações se iniciaram antes da execução de Gegê do Mangue, em fevereiro. Os policiais realizaram buscas em hangares de São Paulo e região metropolitana atrás de aeronaves utilizadas pela facção. Após a morte de Gegê, o helicóptero, que seria utilizado na sua execução, sumiu e só foi localizado ontem.

Ainda de acordo com a Polícia, a aeronave era usada para transportar as drogas do Paraguai e levada a outros estados do Brasil. Resquícios de cocaína foram encontrados embaixo dos bancos do veículo.

Rogério foi funcionário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais até novembro de 2013, indicado pelo então deputado Gustavo Perrella. Na época, foi preso em flagrante, em uma fazenda de Afonso Cláudio, no Espírito Santo.

Na companhia de outro piloto, trazia 445 quilos de pasta-base de cocaína desde o Paraguai. A drogada estava sendo descarregada por ele, o segundo piloto e mais duas pessoas, quando policiais prenderam todos.

Rogério ficou seis meses na cadeia. No dia em que prestaria depoimento, em maio de 2014, o juiz o liberou, sob fundamento de que as investigações tinham sido tumultuadas por uma suspeita de flagrante preparado.

O processo seguiu, e Rogério acabou condenado, no ano passado. Mas pôde recorrer em liberdade.

Solicitei entrevista a Rogério algumas vezes, mas ele sempre se recusou. Seu advogado, Paulo Henrique da Rocha, criminalista experiente de Vitória, assumiu o caso depois que outro advogado havia insinuado que a família Perrella era responsável pela mercadoria transportada no helicóptero.

A Polícia Federal isentou os Perrella de participação no transporte de cocaína desde o Paraguai. Segundo relatório dos policiais, Rogério teria usado o helicóptero num frete a terceiros, autorizado por Gustavo Perrella, porém sem que este soubesse que seria transportada droga. 

No curso da investigação, se descobriu que a apreensão do helicóptero dos Perrella foi o resultado de uma operação que fugiu  ao controle de outro setor da Polícia Federal, que já vinha investigado uma quadrilha de traficantes a partir de um núcleo no Mato Grosso do Sul.

Os pilotos estavam sendo monitorados, sem que soubessem, por uma equipe da PF de São Paulo. A prisão acabou desencadeada a partir de investigação da Polícia Federal em Vitória, com a participação da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo.

O caso Helicoca teve cinco condenações, a partir das pessoas flagradas com a drogas, mas, ainda hoje, não se sabe a quem pertencia a cocaína.

Da mesma forma, ontem, com o helicóptero em que havia apenas vestígio de droga, permanece a dúvida sobre como a Polícia Civil de São Paulo chegou até lá.

O tráfico internacional é como uma empresa. Tem organização e hierarquia. O piloto Rogério é apenas a ponta visível de uma máquina que se move sem cessar. No andar de baixo, sai um, entra  outro. Já no comando, não visível, a situação é mais estável, e em geral seus integrantes permanecem ocultos.

Quando investiguei o Helicoca, entrevistei o juiz do caso, Marcus Vinícius Figueiredo de Oliveira Costa, titular da 1ª Vara Federal Criminal de Vitória. Foi uma conversa não gravada.

Em um momento, me surpreendi com a sinceridade do magistrado, diante da pergunta sobre quais seriam os desdobramentos do inquérito — ainda não era processo –, que tinha recebido o número de 666, por coincidência o número da besta. O texto termina assim:

No caso do inquérito em Vitória, 666 serviu para expor os demônios do sistema judiciário, em que procurador briga com procurador, delegado inocenta previamente suspeitos, e o juiz, um profissional preparado, com pós-graduação na Sorbonne, dá uma resposta sincera diante da pergunta sobre a impunidade nesse rumoroso caso.

— Eu continuarei juiz, você, jornalista e eles, traficantes.

O juiz estava certo.

E ele sabe que, nessa cadeia criminosa, nem todos são punidos.

 

 

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