Por que São Paulo vive a campanha para prefeito mais apática desde sempre. Por José Cássio

sao paulo - metrô

 

A conjuntura nacional vive um momento delicado. O grande número de escândalos envolvendo diversos partidos e o impeachment de uma presidente por razões questionáveis fizeram com que muitos brasileiros perdessem a fé na classe política.

Óbvio que este cenário afetaria as eleições municipais, como de fato afetou: neste ano, os eleitores estão ainda mais apáticos e descrentes de tudo.

Nas eleições anteriores, em São Paulo, por exemplo, a desidratação no primeiro de Celso Russomanno, um notório aventureiro, foi bem mais rápida e consistente. Neste mesmo período, em 2014, a cidade já debatia as propostas de José Serra, candidato do PSDB, e de Fernando Haddad, do PT.

Hoje, o ceticismo é tão grande que, pela primeira vez, corremos o risco de ver Russomanno no segundo turno, inclusive com chances de vitória.

As críticas ao candidato — que, vale lembrar, quase foi preso — não colaram e ele disparou na intenção de voto. Apesar de ter sofrido uma queda nas últimas pesquisas, isso ainda não é suficiente para torná-lo carta fora do baralho.

O cenário de indiferença se repete com os demais candidatos.

Semana passada, Marta foi chamada de golpista pelo filho Supla, que publicou a seguinte frase: “Minha mãe é golpista, meu pai é petista e eu sou anarquista, momentos políticos difíceis, né?”.

Ninguém, nem a própria Marta, deu a mínima para o fato.

Ser chamada de golpista sequer tirou meia hora de sono da candidata. Marta teve a apatia do público, que aprendeu a não confiar nos candidatos e relevar as coisas boas e, principalmente, as ruins, que fazem.

Nesta semana, foi a vez de João Doria, encurralado por César Tralli durante a sabatina do SPTV. Após colocar em debate o racha no PSDB e a má gestão tucana na esfera estadual, Tralli atraiu Doria para o tema das invasões.

O publicitário respondeu dizendo que quem invade é um transgressor e que isso não seria admitido em sua gestão. Mordeu a isca. E Tralli veio com tudo: lembrou o candidato de uma área pública invadida por uma de suas propriedades particulares e perguntou se ele se considerava um invasor.

O que acontece é que Doria incorporou ilegalmente uma área pública à sua mansão em Campos do Jordão. Ele foi condenado a devolver o terreno à Prefeitura, mas insiste em manter a área à sua propriedade. O processo corre há 20 anos e Doria já tentou comprar a área, mas não conseguiu.

Era de esperar que o candidato tentasse sair pela tangente. Começou fazendo elogios desmedidos a Tralli e concluiu com a velha máxima do “não é bem assim”.

Mesmo esse embate teve pouca relevância para a maioria dos eleitores.

Fossem outros tempos, São Paulo pararia para discutir o acontecido, mas e agora? Doria não está nem aí, pois sabe que esse não será um assunto investigado pela mídia e, tampouco, pelos seus eleitores.

Estamos vivenciando uma inacreditável frieza do eleitorado, somada à acomodação dos próprios candidatos. Não há movimentações, reuniões, debates, nada. Apenas alguma atividade por WhatsApp, o elemento surpresa da eleição, e no Facebook.

Muitos, como Doria, aproveitam-se da situação e anunciam que não são políticos, como se isso fosse uma vantagem competitiva. O mesmo acontece nas eleições para a Câmara de vereadores.

Num cenário assim, só nos resta a surpresa – e sabemos que, quando o que se tem é apenas a surpresa, coisa boa é que não há de vir.

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