Por que Pondé deu o argumento final A FAVOR do ‘Mais Médicos’

O filósofo abusou da Lei de Godwin ao se utilizar de Hitler, do nazismo e dos judeus.

Ponto perdido
Ponto perdido

O filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé usa um truque manjado em suas crônicas. Ele costuma mencionar jantares em companhia de um casal politicamente correto (na visão dele, naturalmente). Uma “amiga” também aparece periodicamente em seus textos.

Essas pessoas têm opiniões bem diversas das dele. São a favor dos índios, por exemplo. Ou comem comida natural. Ou são budistas. Pondé usa essa escada para desfiar a sua tese, seja ela qual for. (Não se entende muito bem o que Pondé faz nesses convescotes com gente tão diferente dele, mas isso não vem ao caso.)

Em sua última coluna, Pondé se utilizou de outro artifício retórico — este bem mais capenga. Dando aquela bambuzada previsível no programa Mais Médicos, ele comparou o governo aos nazistas. “Os médicos brasileiros são os ‘judeus do PT’”, escreveu. “Assim como os judeus foram o bode expiatório dos nazistas, os médicos brasileiros estão sendo oferecidos como causa do sofrimento da população. Um escândalo.”

A argumentação é calcada numa histeria que não ajuda a discussão — muito pelo contrário. Mas o tiro no pé é o paralelo com o nazismo, um legítimo, clássico, fiel, perfeito representante da “Lei de Godwin” (ou do que se chama “reductio ad Hitlerum”).

Mike Godwin é um advogado americano que ficou famoso ao formular um paradigma nos anos 90: “Enquanto uma discussão na Internet aumenta, a probabilidade de uma comparação envolvendo Hitler e os nazistas se aproxima de 100%”. Ao chegar a esse extremo absurdo, a conversa termina.

Hoje a máxima de Godwin serve para debates em qualquer fórum. Quando alguém se refere ao nazismo é porque não há mais argumentos. É o fim da linha — o que pode vir depois do mal absoluto? Entregou os pontos.

O “reductio ad Hitlerum” é criação do professor Leo Strauss, da Universidade de Chicago, e tem o mesmo sentido (a expressão é uma adaptação marota de “reductio ad absurdum”). Quando não se há mais o que dizer, quando a coisa fugiu ao controle, surge a cartada nazista. Pronto. Discussão perdida. (É mais ou menos quando você tenta convencer aquele seu amigo bêbado a parar de tomar cachaça porque ele fica inconveniente: “Hitler tomava cachaça!”. Desespero puro).

Godwin disse numa entrevista recente: “É a pior coisa que se pode pensar. Se você está numa escalada retórica com alguém, é fácil recorrer a isso quando não está refletindo sobre suas palavras”.

O que Pondé fez foi enterrar seu ponto de vista sob uma falácia. Agora, é claro que a Lei de Godwin perde a validade para quem estiver, eventualmente, numa reunião de neonazistas. E não, não acho que Pondé as frequente. Sig heil!

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