Por que os alunos de Goiás estão sendo submetidos à pedagogia do “prende e arrebenta”. Por Mauro Donato

Alunos protestam em Goiânia
Alunos protestam em Goiânia

 

Na mesma época em que os estudantes paulistas ocupavam as escolas durante o ano passado, alunos de escolas de Goiás iniciavam movimento semelhante. Por motivos afins porém levemente diferentes.

Em Goiás, a revolta era (é) contra a iniciativa do governador Marconi Perillo (PSDB) de transferir a gestão das escolas estaduais para as famigeradas OSs (Organizações Sociais), um evidente primeiro passo na direção da privatização do ensino público.

Começou acanhado. Enquanto aqui eram mais de 200 escolas ocupadas, lá mal chegavam a vinte. Entretanto, a situação em Goiás foi ganhando contornos dramáticos. O número de ocupações não deslanchou e as escolas foram violentamente atacadas pela polícia de Marconi Perillo que não respeita trâmites judiciais. Mesmo sem ordem judicial nem mandados de segurança, o governador tocou a PM em cima. Onde havia algum respaldo judicial que o impedisse, enviou policiais à paisana e armados (!!) e incentivou pais de alunos contrários às ocupações que entrassem e expulsassem os estudantes na marra. Os casos de agressão não param de se multiplicar.

No dia 25 de janeiro, os ocupantes da escola Ismael de Jesus da Silva foram agredidos e tirados à força por homens desconhecidos e no dia seguinte a escola Robinho Martins de Azevedo foi atacada por homens encapuzados com toca ninja e armados com pedaços de pau.

Mas a valentia de alguns poucos pode compensar a covardia de uns muitos. Estudantes e professores integrantes do Movimento de Estudantes, Professores e Apoiadores contra a Terceirização das Escolas não cederam à pressão e decidiram então ocupar o prédio da Secretaria de Educação. Lá permaneceram por mais de duas semanas. Nesta semana a polícia invadiu e levou todo mundo preso. Maiores e menores de idade.

“Fomos presos dentro do direito legítimo de manifestação que é garantido por lei. Para conter 31 manifestantes, professores e estudantes desarmados, foram enviados centenas de policiais do Batalhão de Choque e dois helicópteros com policiais da GRAER (Grupo de Rádio Patrulha Aérea). Reitero, 31 manifestantes desarmados. Não tivemos direito de negociar para sair pacíficamente, fomos agredidos com spray de pimenta e cacetetes, algemados como criminosos e mantidos dentro de um ônibus por 13 horas. Fomos conduzidos para a DRACO (Delegacia de Repressão as Ações Criminosas Organizadas) e depois à DEIC (Delegacia de investigação Criminal), onde não fomos colocados em uma cela, mas sim em uma área sem cobertura, expostos ao sol”, declarou Alexandre de Paula Meirelles, um dos professores presos.

“Negaram-nos água e não deixaram entrar os colchões que os companheiros se esforçaram para nos levar. Dormimos no chão e no sereno, sem cobertas. Nestas condições o governo do Sr Marconi Perillo nos manteve por dois dias. Encarcerados estávamos estudantes, professores (dentre estes três mestres) e doutores. Para finalizar eu queria dizer que todo esse conjunto de acontecimentos me deu muita força pra continuar na luta”. Todos foram libertados na data de ontem mas alguns receberam acusações de dano ao patrimônio, corrupção de menores e formação de quadrilha.

No melhor estilo general, Marconi Perillo prende e arrebenta. São muitos os relatos de ameaça de morte sofridos por pais, alunos e professores. Não por acaso, Goiás é o Estado com o maior número de colégios militares no país.

Perillo deixa claro que não quer dialogar e demonstra que, independentemente da legalidade, irá usar de violência e criminalização contra estudantes que exercem seu livre direito de manifestação contra um projeto que quer privatizar as escolas e tratar a educação pública como mercadoria, com finalidade única de gerar lucros para terceiros.

A educação no Brasil começa a se assemelhar a um filme de Quentin Tarantino. Com brutais cenas de violência sendo que no lugar de oito odiados, temos três. Alckmin, Perillo e Beto Richa. Há ainda o cenário de faroeste que em Goiás colabora para uma intensificação da repressão. Em São Paulo, por mais que Alckmin conte com uma imprensa amiga, é impossível manter as coisas por baixo dos panos durante muito tempo. Diferentemente do que ocorre em Goiás que é facilmente blindada. Fora do eixo de noticiário, o coronelismo fala alto e impõe sua truculência na maior desfaçatez.

Mas há um aspecto neste quadro geral que não pode ser desprezado. Isso não é um filme, é a realidade e tem faltado pulso para a presidente Dilma. Ok, somos uma Federação e pela Constituição Federal de 1988 os estados não precisam prestar contas ou pedir autorização ao MEC para gerir as próprias redes de ensino.

Mas a Constituição também define a educação como um “dever do Estado e da família, a ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”. Ora, o Estado como um todo, a nação. O governo federal não pode se furtar da reponsabilidade quando um de seus Estados não cumpre seu dever. Até porque, quando é interessante, o governo intervém até para salvar empresas ou bancos. Nao irá intervir na educação, vai ficar assistindo de braços cruzados?

O principal mote da campanha de Dilma em 2014 foi “Pátria Educadora” e ela tem assistido passivamente a esses descalabros cometidos pelo trio odioso que bate em professores, espanca pais de alunos, prende estudantes. Nunca fez um único pronunciamento que fosse. Vai esperar um adolescente morrer?

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