Por que as séries de TV estão matando o cinema

Se alguém te convidar para ver o último blockbuster, desconfie.

Lá vem o Homem-Formiga
Lá vem o Homem-Formiga

 

Você ainda vai ao cinema? Qual foi o último filme que viu e, uma semana depois, não esqueceu?

Em dúvida, não vá. As séries são melhores. As séries têm melhores histórias. As séries têm ótimos atores (o cinema também, mas de que adianta um elenco cheio de estrelas e uma história vagabunda? O soberbo abacaxi Caça aos Gângsteres, por exemplo, contava com Ryan Gosling, Sean Penn e Josh Brolin).

Há alguns dias, em entrevista à Folha, o escritor Mario Vargas Llosa elogiou seriados como Homeland e House of Cards. Disse que eles são a continuação de uma tradição divertida, a dos folhetins.

O cinema fez uma aposta na baixa qualidade, no dinheiro fácil das superproduções e na venda de pipocas, refrigerantes de meio-litro em salas com espreguiçadeira (não me refiro a certas produções independentes).

Esse baixo nível é culpa do modus operandi de Hollywood. A criatividade deu espaço para executivos de contas, que calculam quanto acham que vão faturar com determinado produto e têm influência cada vez maior no resultado final. Há 20 anos, era uma pessoa que dava o sinal verde. Hoje, o departamento responsável pela distribuição nacional e internacional, o pessoal do financeiro e os patrocinadores dão seu pitaco. É uma obra conjunta feita por técnicos.

O diretor é quem menos importa. A autoria é massacrada. “Nós não lançamos nada que não seja bom para os negócios”, disse um executivo da Warner Brothers.

Mad Men
Mad Men

Não à toa Woody Allen trabalha de maneira independente e o último lampejo de genialidade de Martin Scorsese foi na HBO, com Boardwalk Empire. E, por isso, há tantos filmes parecidos: se uma besteira com super-heróis rende milhões, virão mais 350 com a mesma fórmula. Tanto faz quem está no papel de Homem de Ferro, Homem Aranha ou Homem Formiga (sim, Homem Formiga, em breve). Você está certo quando acha que vendo a mesma coisa pela enésima vez.

O cineasta John Cassavettes explicou, certa vez, por que era original: “Porque eu não tinha dinheiro”. Cassavettes era obrigado a se virar com um bom roteiro e com surpresas que não fossem explosões, tiroteios e gente massacrada.

Como as séries de TV lidam com outra realidade financeira, ainda há espaço para a, resumamos assim, arte. Breaking Bad, Homeland, Dexter, Parks and Recreation, Mad Men, Os Sopranos, Downtown Abbey, entre outras, têm de se distinguir umas das outras porque, senão, somem na paisagem. A melhor maneira de se distinguir e segurar a audiência por meses é realizar algo de qualidade.

Se alguém te convidar para ir ao cinema, desconfie. Dependendo muito do convite, é um sequestro-relâmpago do seu tempo, do seu dinheiro e da sua inteligência.

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