Por que a ideia do ‘Estadão’ de fechar o vão livre do Masp é estapafúrdia

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Uma mobilização em defesa do vão livre do MASP contra a ameaça de fechamento do espaço fez nascer a comunidade “No meu vão ninguém mete a mão”. Em apenas 3 dias, a página criada no facebook atraiu mais de 9 mil curtidores.

Mas de onde brotou a ameaça e qual a possibilidade desse desastre ocorrer são as peguntas a serem respondidas.

A ideia estapafúrdia surgiu num editorial ranzinza e retrógrado do Estadão que, em nome da moral e dos bons costumes, defendeu a instalação de cercas em torno do museu. Segundo o jornal, a situação atual de manifestações e consumo de drogas no local é incompatível com o museu e cabe às administrações responsáveis (prefeitura e MASP) encarar a “nova realidade da cidade”, “cercar o museu” e “recorrer à força policial para colocar cada um no seu devido lugar”.

Isso seria possível?

O projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi não foi concebido daquela maneira por capricho revolucionário da autora. Foi desenhado como um prédio em suspensão para atender a requisitos. Na ocasião da doação do terreno, que era privado, ao município, foi acordada a condição de que aquela área deveria ficar livre e desimpedida. Por isso o MASP é dividido em duas partes: uma suspensa e outra subterrânea, ficando o vão livre para o desfrute da vista em direção ao cento da cidade. Dona Lina concebeu o projeto do MASP em função disso e não o contrário.

O Masp é um bem tombado por nada menos que três agências oficiais dedicadas à preservação do patrimônio histórico  (Iphan, Condephaat e Conpres). Ou seja, todas as instâncias – municipal, estadual e federal – entendem que estamos diante de um bem maior, que não pode ser descaracterizado. Quanto mais por algo tão visualmente agressivo e excludente como grades.

A tal “nova realidade da cidade”, contrariamente ao que acredita o conselho editorial do jornal, é exatamente o debate e a ocupação dos locais públicos. Cidade livre, sem catracas, o direito à cidade. Tudo o que se deseja hoje é derrubar cercas, não erguê-las.

As manifestações iniciadas em junho exigiam o direito à mobilidade, o que acabou se entrelaçando com diversas outras demandas como a ocupação do espaço urbano e o combate a seus guetos, à sua higienização racista, elitista, mercantilista. A “nova realidade da cidade” quer ciclistas, skatistas, rastafaris e o rei do camarote todos juntos e misturados em praças, parques e calçadões.

Um dos argumentos do editorial foi o baixo índice de visitação da exposição do fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand na área descoberta e o alegado alto número de queixas dos visitantes a respeito do consumo de drogas no local.

Há consumo de drogas no MASP? Sim, há décadas e a própria instalação dos painéis fotográficos, vale dizer, só colaborou para piorar o que já desagradava ao museu. Disposta da maneira como foi, criou uma barreira visual para os bancos que dão vista para a avenida Nove de Julho, ponto tradicionalíssimo da cidade para queima de baseados. Com a “ajuda” do museu, a coisa deve ter se intensificado de fato.

Por óbvio que ninguém deseja ver o vão livre transformar-se numa cracolândia, mas a questão sempre retorna: onde está a raiz do problema? Por que está se transformando em uma cracolândia? Há uma guarita da PM constantemente embaixo do próprio vão do MASP e uma base móvel do outro lado da rua há anos. O que fazem lá?

No dia 15 de outubro, o que era para ser o Dia de Fúria e mostrou-se um fiasco, a diversão de policiais e imprensa foram as batidas contra frequentadores do “fundão”. Registrei uma abordagem contra um grupo em que até colchões já faziam parte do acampamento. Ninguém viu quando se instalaram?

O vão livre não é do MASP e as questões de segurança ali são as mesmas de qualquer logradouro público da cidade. Querer “limpar” a cidade na base do jato de tinta cinza, das grades e dos cacetetes não resolve nada.

Ainda que o sonho do museu seja o de precaver-se da ineficiência do policiamento, isolar o MASP através da instalação de um gradil é uma ideia típica de quem não está em acordo com a nova realidade da cidade e dos cidadãos. O museu viraria assim… um museu.

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