“PMs de Cristo” invadem audiência sobre Direitos Humanos com grupo de extrema direita para intimidar organizadores

Soldados na plateia na Assembleia Legislativa de SP

 

Era uma audiência pública sobre Direitos Humanos e Educação. O objetivo: refletir o papel do Estado e estabelecer metas para agentes públicos, políticos e a sociedade civil organizada.

Entretanto, a platéia do auditório da Assembléia Legislativa ficou forrada de policiais. O que a PM foi fazer lá?

Quem convocou foi o Coronel Terra, presidente dos PMs de Cristo. Em áudio enviado por whatsapp, ele exortou os militares e companheiros ‘defensores dos valores da família’, seja lá o que isso quer dizer e de qual família esteja falando, a comparecerem em peso.

“Meus queridos irmãos, líderes, pastores do projeto Polícia-igreja e dos PMs de Cristo. Precisamos estar presentes na Alesp pois há um grupo de pessoas que trabalha contra a polícia militar e que se infiltrou no conselho de direitos humanos e vai aprovar leis que vão complicar a vida da PM e da segurança pública. Querem interferir diretamente na formação de policiais, infiltrando pessoas que sabemos serem perigosas”, disse o militar-cristão.

Seria a última das 23 audiências públicas para tratar do Plano Estadual de Segurança Pública e uma das pautas, obviamente, referia-se à formação de policiais militares. Básico. Mas quem disse que militar deseja ouvir civil? E quem são as pessoas perigosas para o coronel?

“Esses esquerdistas perigosos, que vão desvirtuando os melhores valores e respeito da pessoa humana (…) Querem infiltrar professores, pessoas perigosas e complicadas de movimentos sociais e de direitos humanos (…) Querem fazer a cabeça dos policiais. Vamos comparecer em peso. Se formos maioria, vamos vencer. É um problema difícil, emergencial, excluíram a PM dessas discussões. Pedimos apoio da rede de bem, das pessoas de bem, pois precisamos conquistar esse território. Conto com vocês e com suas orações. É hora desse exército acordar. Deus abençoe!”

Eu quase caí da cadeira quando soube da existência de um projeto polícia-igreja. O casamento dessas duas instituições nunca dá em boa coisa. Se a igreja não tivesse apoiado Mussolini –  e vice-versa – talvez o fascismo não tivesse tomado a dimensão que tomou.

O que não me surpreendeu foi a presença do Direita São Paulo. O grupo fascistóide que pratica discurso de ódio, xenofobia e demais cretinices preconceituosas e que se orgulha de ter feito a marcha contra imigrantes (com direito a agressão), foi representado no microfone pelo seu ‘vice-presidente’ Douglas Garcia. 

Os fascistas do Direita São Paulo

Ele veio com um discurso que, novamente, não surpreendeu.

“No Brasil, direitos humanos só protegem bandidos e quantos brasileiros estão morrendo porque o núcleo de direitos humanos desarmou os brasileiros intelectual e fisicamente, pois são contra a defesa do povo pelo próprio povo.

Vocês falam de educação citando Paulo Freire? Paulo Freire é o patrono da educação brasileira e é por isso que isso aqui está um total descalabro. É por isso que estudante brasileiro não consegue pensar”, declarou o pensador Douglas.

Ele ainda teve tempo de defender a diferença de tratamento por policiais entre ricos e pobres e de anunciar que o Direita São Paulo é o autor da proposta legislativa de retirar Paulo Freire como patrono da educação.

Depois afirmou, misturando alhos com bugalhos, que “O MST não é um movimento, é um grupo terrorista. E antes que vocês falem que apoiamos o PSDB, foi no governo do PSDB que o MST mais cresceu. Vocês não representam a sociedade civil.”

Ao final, fez campanha pelo aumento do salário dos policiais e puxou o coro de ‘viva a PM’.

Douglas recebeu ruidosa vaia e logo começaram os bate-bocas entre os lados opostos do auditório.

Ninguém chegou às vias de fato até porque policiais estavam lá exatamente para intimidar ‘excessos’. Físicos ou intelectuais, como disse Douglas Garcia, o vice-presidente de uma página de facebook.

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