O Pelé entre os técnicos brasileiros

Há sete anos morria o grande Telê Santana, o único treinador da seleção que triunfou na derrota.

Telê foi o Pelé dos técnicos brasileiros
Telê foi o Pelé dos técnicos brasileiros

PERDER UMA Copa do Mudo é demissão com justa causa para qualquer treinador do Brasil. Uma vez, um dos maiores técnicos brasileiros da era romântica do futebol, Osvaldo Brandão, substituiu imediatamente um jogador que perdera um gol absurdo. Os repórteres perguntaram depois se ele não temia queimar o atleta. “Jogador meu, quando  faz uma bobagem dessas, não precisa nem olhar na minha direção”, disse Brandão. “Pode ir direto para o vestiário.”

É o mesmo caso de técnico que volta sem o título: pode ir imediatamente para o DP, como se falava nos tempos em que o Departamento Pessoal das empresas era onde os demitidos iam acertar os detalhes. Jornalistas, torcida: todos esperam o justiçamento imediato do perdedor.

Houve uma exceção conspícua: Telê Santana.

Foi  tão bonito o futebol apresentado pelo time montado por Telê em 1982, na Espanha, que ele comandaria a seleção quatro anos depois mesmo não tendo vencido a  Copa. (E mesmo sem ser carioca, numa época de completo domínio do Rio no futebol brasileiro.)

Qual  a mágica de Telê para sobreviver a uma catástrofe nacional?

Telê devolveu a beleza ousada, a petulância agressiva  ao escrete brasileiro depois de duas Copas em que jogamos retrancados como europeus. A primeira foi na Alemanha em 1974, com Zagalo. A segunda foi na Argentina, com Cláudio Coutinho, um técnico que trouxe ao futebol  brasileiro não apenas o espírito estrangeiro como um palavreado pretensioso em inglês. Overlapping, por exemplo, quando um jogador do time passava por outro para receber a bola. Os craques brasileiros sempre fizeram isso. Apenas não sabiam o nome da manobra.

Com Telê, em 1982, a seleção voltou às origens. Um jogador apenas bom,  ponta-direita magro e esforçado que viveu seu melhor momento no Fluminense nos anos 50, Telê virou depois um técnico extraordinário. Os times que ele comandou tinham duas marcas fortíssimas: o futebol limpo e o espírito ofensivo.   Poucos treinadores no Brasil foram tão competentes quanto Telê na arte de extrair o máximo possível dos jogadores. Ele sabia mesclar novos e veteranos, e com seu temperamento forte mantinha uma distância saudável de cartolas, outras duas grandes qualidades.

O BRASIL de 1982 evocou o Brasil de 1970.

Craques como Sócrates, Falcão e Zico encantaram o mundo nas primeiras partidas. O sistema era diferente. Eram 24 times, não 32 como agora. Distribuídos em seis chaves, dois se classificavam. Na segunda fase, eram formados quatro  grupos de três. As equipes jogavam entre si e a primeira avançava para as semifinais.

Brasil, Argentina e Itália disputariam uma vaga.

A Argentina, que defendia o título de 78, tinha um jovem 10 chamado Maradona, de 21 anos. A Itália não tinha ninguém e, como sempre, jogava um futebol feio e dominado pela tática. Batemos a Argentina num grande jogo em que Maradona perdeu a cabeça e pegou seu marcador, Batista, no meio. Foi expulso.

Jogávamos pelo empate com a Itália no tristemente célebre estádio  Sarriá. Em dez jogos o Brasil teria vencido nove.  Dessas nove,  oito com facilidade expressa em goleada, como na final do México.

Mas aquele jogo fatídico foi o décimo e a exceção.

Toninho Cerezzo deu um passe perfeito para Paolo Rossi e o Brasil acabou perdendo por 3 a 2.  Derrotar o Brasil elevou tanto os jogadores italianos que eles ganharam com folga depois a Copa.

A seleção brasileira de Telê experimentou uma derrota épica naquela tarde triste no Sarriá. O time deixou saudade – ao contrário, paradoxalmente, da irritante seleção de Parreira que doze anos depois ganharia o Tetra nos Estados Unidos. O Brasil, sob Telê, reencontrara o Brasil. Como a Hungria de 1954 e a Holanda de 1974, o Brasil de 1982 ofuscou os campeões mesmo sem batê-los.

O prestígio de Telê sobreviveu à eliminação. Ele deixou o cargo e ao mesmo tempo deixou saudade, e por isso acabou retornando à seleção para a Copa seguinte, na qual um pênalti perdido por Zico no final de um jogo contra os franceses de Platini abriria um período de catástrofes nas relações futebolísticas entre o Brasil e a França.

Telê voltou da Espanha respeitado e admirado como antes. Caiu de pé, com um time de bravos que poupou a torcida de lágrimas mas não de suor.  Até o final da vida, foi fiel às suas crenças essenciais: um futebol limpo, destemido, bonito  — e por isso mesmo reverenciado mesmo na derrota.

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