O que está em jogo no bombardeio do Iraque pelos EUA

Avião eua

Publicado na DW

 

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou na noite desta quinta-feira (07/08) a autorização para que as Forças Armadas americanas realizem ataques aéreos específicos a áreas ocupadas pelo autodenominado Estado Islâmico (EI) no Iraque. O líder americano também lançou uma operação humanitária para assistir refugiados no norte do país.

Segundo Obama, os ataques serão realizados se for necessário proteger minorias religiosas sitiadas no Iraque e também americanos ameaçados pelos militantes islâmicos em todo o país, especialmente caso os extremistas avancem sobre Arbil, capital da região curda semi-autônoma no norte iraquiano, onde existe um consulado dos EUA.

Os ataques aéreos devem ainda apoiar ações das forças iraquianas e curdas que tentam frear o cerco islamista a dezenas de milhares de yazidis – mebros de uma eligião curda com antigas raízes indo-europeias – no topo de uma montanha. Os refugiados enfrentam escassez de água, comida e remédios, segundo agências de notícias. Na noite desta quinta-feira, aviões americanos jogaram mantimentos sobre o local – cerca de 20 mil litros de água potável e 8 mil refeições.

“Podemos agir com cuidado e responsabilidade a fim de evitar um potencial ato de genocídio”, afirmou Obama, descrevendo os militantes islâmicos como “bárbaros”. “Se temos a capacidade única de ajudar a prevenir um massacre, acredito que os Estados Unidos não devem fechar os olhos”, justificou o presidente.

EUA descartam nova guerra

Obama garantiu ainda que não haverá envio de forças americanas ao solo iraquiano e descartou ter a intenção de permitir que os EUA “sejam arrastados para uma nova guerra” no Iraque. O anúncio, porém, considerado a mais incisiva resposta americana à crise no Iraque até agora, aumenta o receio de uma nova investida militar no país – a primeira desde a retirada das tropas americanas em 2011 após uma guerra que durou uma década.

Na tentativa de exercer pressão sobre o primeiro-ministro do Iraque, o xiita Nuri al-Maliki, Obama insistiu na necessidade de o governo iraquiano “representar legitimamente os interesses de todos os iraquianos”, a fim de reverter o atual avanço militantes islâmicos.

Até então reticente com relação a operações em território iraquiano, Washington mudou o posicionamento depois que o Estado Islâmico, que conquistou vários territórios nos últimos meses, teve ganhos significativos diante das forças curdas e avançou em direção a Arbil.

Militantes do “Estado Islâmico” ampliaram seu domínio em partes do norte do Iraque, conquistando mais cidades e fortalecendo suas bases perto da região curda.

A ofensiva deixou em alerta o governo do país, além de ter causado um êxodo de cristãos, assustados com o avanço dos radicais. “Todas as vilas cristãs estão vazias”, disse o arcebispo Joseph Thomas, na cidade curda de Kirkuk.

Dezenas de milhares de membros da minoria religiosa yazidi também fugiram do país rumo à Turquia, depois de jihadistas terem tomado o controle de grandes áreas no norte do Iraque.

Segundo relatos de testemunhas, os radicais tomaram Qaraqosh, a maior cidade cristã do Iraque, e outras localidades perto de Mossul. “Sei que as localidades de Qaraqosh, Tal Kayf, Bartella e Karamlesh foram esvaziadas de seus habitantes e estão sob controle dos rebeldes”, afirmou o arcebispo.

Os combatentes do “Estado Islâmico” tomaram posições durante a noite, depois da retirada das forças curdas, explicaram residentes.

Qaraqosh é uma localidade totalmente cristã, situada entre Mossul, a principal cidade nas mãos do EI no Iraque, e Erbil, capital da região autônoma do Curdistão. A população residente era de 50 mil habitantes, mas recentemente começou a receber numerosos cristãos expulsos de Mossul.

Mais ao norte, Tal Kayf, onde também vivem muitos cristãos, mas também membros da minoria xiita Chabak, foi também esvaziada durante a noite. “Tal Kayf está nas mãos do Estado Islâmico. Eles não encontraram resistência alguma e chegaram ao local logo depois da meia-noite (hora local)”, relatou um residente que fugiu da localidade, contactado por telefone em Erbil.

Perseguição religiosa

O “Estado Islâmico” vê a maioria xiita e minorias de cristãos e yazidis como “infiéis”. Os yazidis, em especial, são vistos como “adoradores do diabo”.

“Esta é uma tragédia de proporções imensas que tem impacto na vida de centenas de milhares de pessoas”, disse David Swanson, porta-voz do Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU. Segundo ele, cerca de 200 mil yazidis fugiram da cidade de Sinjar e estão escondidos nas montanhas da região.

Outra fonte da ONU alertou para a situação de crianças nas montanhas – muitas delas sofrendo de desidratação. De acordo com a fonte, pelo menos 40 crianças morreram desde que a ofensiva começou, no fim de semana passado.

O ataque de militantes do grupo levou o Iraque à sua pior crise desde a saída dos soldados americanos do país, em 2011.

Quando os radicais tomaram o controle de áreas habitadas por minorias, os cristãos foram obrigados a se converter, pagar uma taxa ou deixarem suas casas. Aqueles que não obedecessem, enfrentariam o risco de serem executados.

“A maioria dos deslocados está vivendo ao relento e pode morrer por causa do calor intenso e por causa da falta de água e comida”, disse o católico Louis Raphael Sako. “É um desastre humanitário.”

Avanço

De acordo com fontes turcas, centenas de yazidis chegaram ao país depois de serem expulsos do Iraque por militantes do “Estado Islâmico”.

Um funcionário do Ministério do Exterior da Turquia descreveu a fuga como uma tragédia humana. “Não é possível para a Turquia permanecer indiferente diante disso. Nós cumpriremos nossa responsabilidade.”

Antes da ocupação americana no Iraque, em 2003, havia pelo menos 1,2 milhão de cristãos no país. O número teria sido reduzido para cerca de 500 mil atualmente.

Em sua conta no Twitter, os militantes disseram ter tomado o controle de 15 cidades, além da represa de Mossul, no rio Tigre, e uma base militar.

Além de representar a pior ameaça para a integridade do Iraque desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, o avanço dos militantes preocupa a região como um todo, que teme que outros radicais juntem-se à campanha do “Estado Islâmico”.

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