O que a resistência Palestina às investidas de Israel diz sobre a relação ricos/pobres no Brasil. Por Carlos Fernandes

Grafite perto do muro cercando Israel. Foto: Wikimedia Commons

A despeito das inúmeras formas de opressão política, religiosa, econômica, jurídica e social, existe invariavelmente um padrão mais ou menos homogêneo no conteúdo de como tudo isso se dá.

Seja no regime escravocrata, feudal ou capitalista, há sempre o que o economista e sociólogo alemão Max Weber chamaria de tipos ideais de dominação.

Para ele, independente do campo ao qual esteja se tratando, a dominação é sempre mais fácil de ser conquistada e preservada pelo dominador, na proporção exata em que o dominado está disposto a aceitar a ordem estabelecida.

Considerando a teoria Weberiana, muito está explicado sobre o complexo e infindável conflito entre israelenses e palestinos na região da Cisjordânia.

Israel, sob o modelo e aparato norte-americano de colonização e após um histórico de décadas de invasões irregulares a territórios palestinos, continua a atuar com força militar desproporcional e ações que, inacreditavelmente, assemelham-se a atos antissemitas.

Para ficarmos apenas num único exemplo, o muro construído pelo Estado de Israel que percorre uma extensão de aproximadamente 760 km – muitos dos quais passando por dentro de territórios que não lhes pertence – poderia muito bem ser comparado com o muro de Berlim construído à época do Terceiro Reich.

Incoerências a parte, o grande fato é que o único motivo pelo qual Israel, um país bem mais poderoso econômica e militarmente do que a Palestina, ainda não ter dominado e subjugado o povo árabe dessa região, é justamente em função da resistência que esses últimos apresentam na luta pela a preservação de sua cultura, seus costumes e o seu direito internacional de existir enquanto nação.

Isso não é pouca coisa e nos diz muito sobre a relação entre ricos e pobres ou, se preferir, entre dominadores e dominados no Brasil.

A partir do golpe de 2016 que destituiu uma presidenta legítima e democraticamente eleita, duas coisas ficaram patentes nesse país não menos confuso.

Primeiro, que as políticas de inclusão social criadas nos 13 anos de governo petista desagradaram profundamente o andar de cima da pirâmide social.

Segundo, que uma boa parcela da camada direta ou indiretamente beneficiada por essas mesmas políticas passou a concordar com os dominadores no tocante à parte em que os direitos conquistados não lhes seriam devidos.

Max Weber nunca esteve tão presente.

A concordância por parte dos pobres brasileiros, seja por ignorância latente, seja por submissão canina, permite a aplicação daquela velha fórmula terceiro-mundista que sempre resulta na obscena acumulação da riqueza por parte de poucos e o seu consequente aprofundamento da desigualdade social.

É o exemplo clássico da dominação perfeita de Weber. Os dominados aceitam pacificamente a ordem estabelecida pelos dominantes.

Como o Brasil não é para amadores, pobres não só aceitaram que seus direitos tão dificilmente conquistados fossem subtraídos, como fizeram até manifestações públicas para que isso se concretizasse.

O resultado não poderia ter sido mais didático.

Hoje, tendo percorrido várias regiões de Israel e da Palestina, percebo que a relação existente entre esses dois países não é tão diversa da relação existente entre os ricos e os pobres brasileiros.

Se todos os conflitos envolvidos nesses dois espectros pudessem ser resumidos numa única palavra, essa palavra seria dominação.

Daí que a grande diferença está, pois, que os palestinos, de forma contrária a uma grande massa de pobres brasileiros, não se humilham e não se submetem à dominação de seus opressores.

Sabem que seus direitos são legítimos e que sua luta, portanto, também o é.

Por tudo isso, ainda temos muito o que aprender com o Oriente Médio.

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