O primeiro Dia das Mães de Marinete sem Marielle Franco

Marinete Franco

Publicado no Brasil de Fato

Neste domingo (13), pela primeira vez, Marielle não estará presente no almoço de dia das mães na casa de Marinete.

À véspera de completarem-se dois meses desde que a vereadora do PSOL do Rio de Janeiro foi executada com quatro tiros ao lado do motorista Anderson Pedro Gomes, enquanto voltavam de um evento político, a família se reúne para celebrar uma vida de resistência que ecoa a história das mulheres da família, originária da Paraíba.

“É difícil. Esta páscoa já foi uma das piores que enfrentamos. Não foi a mesma coisa, e nunca mais vai ser. A Marielle era muito bagunceira e muito família, entendeu? O tipo de criação que ela recebeu é que deu a ela essa força”, conta a mãe, saudosa e orgulhosa.

A jornalista da Rádio Brasil de Fato Norma Odara conversou com Marinete da Silva no dia 5 de maio, após seminário da 3ª Feira Nacional da Reforma Agrária, cujo tema foi a vida de luta de Marielle e o genocídio praticado todos os dias contra a juventude negra e periférica.

Durante a conversa, o retrato da Marielle militante se mistura com a memória da filha de Marinete, irmã da Anielle, mãe da Luyara, companheira da Monica; e revela uma personalidade completamente avessa à barbárie a que ela foi submetida na noite de 14 de março de 2018.

Confira, abaixo, trechos da entrevista em que Marinete conta um pouco da trajetória da família, ilustrados por fotos do arquivo da família cedidas ao Brasil de Fato para esta homenagem.

FAMÍLIA GUERREIRA

Foto: arquivo familiar
“Ah, eu? Eu sou do interior da Paraíba, minha mãe teve 11 filhos no casamento, sete mulheres e quatro homens, e todas mulheres fortes; já venho de uma família, por exemplo, que minha mãe, a gente chamava de Filó, que era uma mulher conservadora mas já muito ativa politicamente, era cabo eleitoral muito respeitada, porque tinha aquele pessoal da elite que era toda de direita e que foram padrinhos dos meus irmãos mais velhos. Era tradição, naquela época, porque trabalhava lá e o padrinho geralmente era uma pessoa de condição melhor.”

“E é isso, a gente vem dessa geração de mulheres fortes mesmo. E têm outras também, tenho cinco irmãs ainda em João Pessoa, também envolvidas em política, serviço social, e daí nasceu toda essa resistência, essa força que nos move até hoje. Tem Solange, uma pedagoga de João Pessoa, maravilhosa, recebeu a Heloísa Helena tantas vezes em sua casa; então tem toda essa história de vida, inserida há muito tempo. Tá no sangue. A Marielle começou daí.”

INFÂNCIA

Foto: arquivo familiar
“Vim para o Rio com 26 anos de idade. Em 1979, a Marielle nasceu. Aí fiquei cinco anos pra ter outra menina, porque não tinha ninguém da minha família aqui. Tinha muita dificuldade, eu trabalhava também — hoje eu advogo, mas na época não estava advogando, eu estava em sala de aula. Fiz magistério também e fiquei seis anos dando aula na segunda série do primário. Depois entrei na inspetoria, e nesse emprego eu ficava fora do Rio. Foram cinco anos praticamente, e a Marielle já se alfabetizando. Ela cresceu muito nesse período. Ela já começou a atuar em casa em tudo, desde fazer feira, pagar conta, ter cartão para fazer as coisas, dar todo o suporte para o pai dela”.

Foto: arquivo familiar
“A Marielle foi estagiária muito cedo. Com 11 anos ela já pagava a escola dela, já trabalhava. Ali já era uma ajuda pra gente, pra família. Muito proativa, ela era muito competente, muito responsável. Com 16 anos, ela já fazia depósito também. Como eu ganhava razoavelmente bem, porque recebia diária e tudo, então ela tomava conta, assistia as reuniões da irmã; eu autorizava ela, tanto na catequese quanto na escola, quando o pai não podia ir. Então era uma criança muito ativa, muito brincalhona, e muito educada também. Modéstia à parte, eu criei muito bem minhas filhas, as duas.”

JUVENTUDE

Foto: arquivo familiar
“Quando começou tudo, essa luta, foi na comunidade, depois da morte de uma amigona dela da catequese, a Jaqueline, que foi morta brutalmente [vítima do fogo cruzado entre policiais e traficantes], morreu praticamente na porta dos avós dela, na Maré. Já tínhamos um contato com o Marcelo [Freixo], que era professor de história da Ani, que sempre estudou em colégios bons porque jogava vôlei, até morou fora e tudo, então assim começou.”

Foto: arquivo familiar
“A Marielle casou cedo, com 19 anos, teve a Luyara cedo também, teve bem, graças a Deus. Depois separou, ficou na minha casa e nós formamos o caráter da Luyara assim como da Marielle e da Ani também, porque ela ficou em casa dos 4 anos até ter quase 11. Então o caráter dela foi formado em minha casa.”

Foto: arquivo familiar
“Nesse período foi que ela fez o pré-vestibular comunitário e passou para a faculdade. Era uma minoria na Maré que fazia ensino superior, 5% ou menos na época que a Marielle passou na PUC; hoje, tem 40% ou mais que chegam à universidade. Foi uma grande vitória, então, muito bom. Aí conheceu o Marcelo [Freixo, à época professor universitário e deputado estadual pelo PSOL], foi trabalhar com ele, que era o que eu mais temia, na verdade. Eu temia muito pela vida da minha filha, porque o Marcelo ficou muito visado com a CPI da Milícia e ela tava sempre colada nele, então eu pedi muito, não queria que ela fosse, ela estava muito bem no trabalho, poderia continuar com o trabalho social de direitos humanos, como ela fez, ficou oito anos lá, atendendo as mulheres, e não se candidatar como ela fez, mas era uma mulher teimosa, de força, insistente, e eu não poderia mudar a cabeça dela de jeito nenhum.”

“Daí deslanchou, a PUC, depois a separação dela, ela cresceu muito; porque tem isso, né? Têm mulheres que se apagam e outras que transcendem, né? Foi o que aconteceu com ela, ela transcendeu tudo depois que se separou, cresceu como pessoa, cresceu como mulher, como mãe, porque sempre foi uma excelente mãe para a Luyara, cobrando muito, às vezes até mais rígida que eu. Lá em casa sabe como é, né? É regime nordestino, entendeu? Tem tudo isso”.

Foto: arquivo familiar

DESPEDIDA

“No dia 13, eu fiquei com minha filha, sabe, assim, uma despedida. Saí de uma audiência e ficamos muito mais de duas horas juntas, lanchamos, fomos em várias farmácias buscar remédio porque a Luyara tava com conjuntivite. Depois o Anderson me deixou em casa, então Deus preparou, tipo, uma despedida para a gente, porque os horários não batiam. Ela não faltava à sessão nenhuma, era altamente responsável pelo que fazia, acreditava nos projetos, lutava e defendia. Ela estava quase sem vida própria, porque, por dia, eram quatro ou cinco atividades, e não deixava de comparecer, de dar uma satisfação, nem que fosse só uma palavra. Em nenhum momento ela deixava a desejar. Nesse dia, ela chamou, chamou, eu acabei indo, e foi tipo uma despedida mesmo, acho que Deus preparou aquilo para ficarmos juntas, deixamos ela na academia e eu saí do carro, abracei ela, e no dia seguinte, infelizmente…”

“Da família, eu fui a última a vê-la, não foi nem a Luyara, que a encontrou dia 12, ou a Ani, no dia 11. Eu tive dia 13 para ficar mais tempo com minha filha, foi uma coisa de Deus mesmo. Não que a gente possa esperar que um covarde, sabe, fizesse uma atrocidade dessa, foi uma barbárie o que fizeram com a minha filha. Não por ser uma mulher como Marielle, mas por qualquer mulher, porque ela representava todas as classes que ela defendia, todas os movimentos que ela acreditava. Então, não mataram só a Marielle, mataram dezenas de pessoas, de sonhos, de projetos. Só Deus mesmo para eu estar aqui conversando e falando da minha filha, porque é dor, é muita dor.”

Foto: arquivo familiar

LUTO E LUTA

“É isso, é uma luta. A Luyara agora é minha, já tá morando comigo, acabei ganhando uma filha de 19 anos. Minha outra filha tem uma menina também de 2 anos e 3 meses, e vamos continuar lutando, clamando por Justiça. A gente está esperando uma resposta, daqui a pouco faz 60 dias e não temos nada, enfim, o tempo da investigação não é o nosso tempo, a gente cobra, mas não pode ultrapassar o limite que a gente tem como família, então temos de esperar que esses covardes sejam pegos. Não vejo outra razão para me motivar ainda a viver como estou, né? Inclusive aqui a gente fica feliz, se agrega, junta as pessoas, se fortalece muito, taí esse movimento maravilhoso, esse seminário, em dia de sábado… eu trabalhei a semana toda, mas disse: ‘gente, eu vou!’ Homenagear minha filha me dá muito orgulho.”

“O melhor que você pudesse imaginar nesta vida, para mim, era ela estar aqui. Muito boa, muito humana, cobrava muito –até de mim ela cobrava, dizia ‘mãe, não pode ser assim’, entendeu? Mas uma mulher, sabe, que a gente tem honra de falar. Cobrava muito da Luyara também, muito, muito mesmo. Era uma mãe muito presente. Então, junta a minha dor com a da minha neta, é difícil… Mas a gente vai continuar lutando. Porque é isso, é resistência, é luta, é garra, é elevar esse nome cada vez mais alto, porque é o que a gente precisa, que não fique numa estatística, porque a gente acredita muito nesse trabalho e vamos continuar acreditando.”

LEGADO

Diante da truculência daqueles que tentaram apagar a voz e o legado de Marielle, o Brasil de Fato segue conselho de Marinete: continuar acreditando e elevar seu nome cada vez mais alto. Por isso, selecionamos vídeos publicados na página da vereadora nas redes sociais que registram sua participação em debates sobre as causas pelas quais ela era apaixonada.

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