Um escritor que os brasileiros deveriam conhecer

Kingsley Amis

Kingsley Amis, um dos melhores escritores ingleses da segunda metade do século passado, jamais fez sucesso no Brasil. Seu filho, o talentoso Martin Amis, sim.

Mas é um escritor que merece ser lido.

Kingsley Amis é irônico, engraçado, corrosivo. Acabo de ler “Dear Illusion”, “Doce Ilusão”. É um conto longo, não exatamente um romance. O olhar de Amis para o mundo das letras é divertidamente arrasador. É uma história que faz rir e faz pensar.

Um velho poeta passa anos na sombra, parcialmente esquecido. Uma jornalista jovem, que mal o conhecia, vai entrevistá-lo. Logo se estabelece entre os dois uma relação de cumplicidade que nada tem de sexual: é feita à base de camaradagem e compreensão.

Durante a entrevista, subitamente o poeta inverte os papéis e faz ele uma pergunta a ela. “Você fxxx, senhorita?” Ela diz que sim, mas ressalva que é com o marido, uma meia verdade segundo a narrativa. É uma cena simples e brilhante. (Amis era tão iconoclasta que usou, isso há décadas, a palavra “fuck”. Eu reluto na tradução e ponho a mascaro puerilmente.)

Bem.

Imagino que todo entrevistado tenha vontade de fazer perguntas daquela natureza a nós, jornalistas.

A jornalista pergunta a ele se aspira à imortalidade. Ele conta uma história. Quando ele era jovem, um poeta era comparado a Shakespeare e a Milton. Ninguém mais sabia o nome desse poeta.

O universo literário inglês – críticos, editores — parece se dar conta de que não  tratou o poeta como deveria. Então é armada uma celebração para ele. Depois de discursos altamente elogiosos, é a vez do poeta de falar. Ele pega o microfone e manda todo mundo embora. A interpretação mais verossímel que se faz do gesto imprevisto é que o poeta estava na verdade se desculpando por tantos anos de má poesia.

Nós, jornalistas, somos muito vaidosos para fazer o mesmo: pedir desculpa pelo mau jornalismo.

Mas em muitos casos deveríamos.

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