“O mercado financeiro ganha com o circo do golpe”, diz economista Gilson Schwartz. Por Zambarda

impeachment

 

O economista Gilson Schwartz chegou a defender a entrada do ex-presidente Lula no cargo de ministro-chefe da Casa Civil como uma “agenda ganha-ganha para capitalistas e trabalhadores”.

Com experiência profissionais anteriores trabalhando ao lado de Henrique Meirelles e Guido Mantega, Gilson defende a tese de que economistas vinculados ao mercado financeiro vivem em “guerra civil”. Eles não conseguem dialogar sobre a crise brasileira com os profissionais que são mais críticos com a classe rentista, aquela que lucra na bolsa de valores.

No próximo domingo, dia 17 de abril, a Câmara dos Deputados presidida por Eduardo Cunha votará o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para entender a economia nacional caso um futuro governo Michel Temer dê o golpe na gestão atual, o DCM conversou com Gilson.

Há grupos do mercado financeiro que estão se beneficiando com a alta das bolsas e a queda cambial recente. Quem está de fato faturando com o golpe? 

Quem está faturando é mesmo que aposta dinheiro neste caos. O mercado financeiro que espera retorno de curto prazo opera sobre essas expectativas, que não correspondem ao cenário maior de longo prazo.

Somente um comportamento de manada explica o dólar derretendo para níveis pré-ajuste. Assim como no Congresso, o mercado funciona com os medos e ansiedades neste curto prazo que está refletido nos espelhos midiáticos, nas páginas da imprensa. Os mercados de curto prazo seguem a lógica da sociedade do espetáculo.

Eles ganham com o circo que está se armando.

Na sua análise de longo prazo, se o governo Dilma Rousseff cair domingo por um golpe, o que uma gestão Michel Temer indica na política econômica? 

O governo Michel Temer não indica nada. Todas as mazelas e dilemas estruturais que ameaçam o crescimento de longo prazo na economia brasileira estão hoje, justamente, no horizonte de longo prazo.

Estou entre os poucos economistas que reconheceram o acerto do mix, na mistura, de política econômica implementada pelo governo Dilma 2. Faço eco com o professor Bresser-Pereira sobre a justeza da correção cambial e do realinhamento de preços. Há muito pouco a fazer de diferente até mesmo na política fiscal.

A crise é estrutural, é de reprodução do sistema. No capitalismo, quando isso acontece, é necessária uma nova regulação. As políticas de curto prazo no Brasil, assim como em países mais avançados e em outros em desenvolvimento, estão fazendo o que precisam e inventando o que podem, de “kiwis”, como são conhecidos os ciclos de relaxamento da oferta monetária, até juros negativos.

O que poderia um governo Temer fazer de melhor? Ajudar a organizar o debate nacional, ou seja, preparar as eleições de 2018 e levar o barco devagar.

Pois o nevoeiro está longe de se dissipar.

Se a Lava Jato for abafada com Temer, a confiança na economia brasileira pode piorar?

Já se disse que o Brasil é o “país do futuro”. Durante toda a vida ouvi que essa era uma ilusão, uma frustração eterna, uma meta metafísica. Mas hoje entendo melhor. Não é que o futuro não chega, nós é que reinventamos continuamente o caminho em sua direção.

Qual a base dessa reinvenção? Certamente não é caudilhesca nem burocrática, nem populista nem racional, embora tenha um pouco disso tudo. Noves fora o ciclo recorrente de altos e baixos na política, a componente política mais forte da confiança na economia de um país é a segurança institucional e jurídica.

Isso é que está em todos os indicadores de eficiência de mercado ou qualidade institucional, clima para investimentos.

Então, seja qual lado ganhar a disputa política nessa conjuntura, o fato dessa disputa ocorrer nos marcos de uma segurança jurídica, institucional e até militar representa um marco político estrutural que vai dar ainda mais vigor à retomada na confiança por razões estritamente econômicas.

O dólar ficará em valor apetitoso para a poupança estagnada no Primeiro Mundo. Isso animará uma nova onda de internacionalização interdependente.

O ex-ministro Bresser Pereira disse que o atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, ainda está fazendo um bom trabalho. E afirmou que Henrique Meirelles na pasta é improvável, tanto com Dilma, Temer ou Lula influenciando o governo. Você concorda?

Não sei estimar essa probabilidade e não quero apostar. Mas a crise econômica brasileira pede alguém com visão de longo prazo, internacional e experiente.

Meirelles tem esse perfil, não é?

O que achou da consultoria de investimento Empiricus ter comprado 50% do site de política antipetista O Antagonista, do Diogo Mainardi? É normal?

A ação deles faz sentido, principalmente levando em conta que a chamada grande imprensa, apesar das críticas que recebe e merece por enviesar as opiniões e análises à ortodoxia financeira, ainda preserva padrões de qualidade e relevância que uma consultoria nem sempre deseja.

Não sei se eles foram transparentes nesta aquisição, mas se uma consultoria não ocupa o espaço na mídia sempre é legítimo investir em comunicação, relações com clientes e marketing. O importante é a transparência sobre os interesses e atividades de um consultor.

Mesmo com a economia debilitada, você acha que os analistas estão pessimistas demais?

Na minha visão, o jogo de curto prazo já foi jogado, agora há uma nova regulação da economia mundial em curso.

Houve um claro deslocamento no debate entre os economistas que opinam na grande mídia, da conjuntura para visões mais amplas, estruturais ou de longo prazo, sobre os problemas. Isso é resultado de dois fatos: A política econômica já faz o que pode ser feito, a conjuntura já começa a exibir sinais de melhora e a velocidade com que melhoram as previsões para 2017 e 2018 é sensível.

Digamos que diminuiu a intensidade com que a crise piora. A situação mundial, embora ainda haja uma preocupação consensual com a dificuldade de superar o baixíssimo crescimento, a bolha de poupança e a catástrofe sócio-trabalhista, torna cada vez mais improvável que os juros subam nos EUA.

O Brasil precisa integrar-se a essa “re-regulação” para revelar os futuros que vem incubando, aumentar a produtividade, a eficiência do gasto público e as apostas certas em meio-ambiente, energia e conhecimento.

Sabe-se que os mercados ficarão eufóricos caso Dilma caia. Por quanto tempo isso dura?

Haverá euforia com ou sem Dilma. O pior já passou, do ponto de vista econômico. Com ou sem Dilma, a incerteza vai cair e os futuros do Brasil ficarão mais claros, assim como o saldo positivo do ciclo FHC-Lula-Dilma.

Sim, é preciso aperfeiçoar a regulação. As resistências, tensões e confrontos são inevitáveis, daí a importância de uma repactuação política e de projeto nacional.

Ainda acho que isso acontecerá apenas daqui a dois anos, quando um novo governo for eleito democraticamente.

A falta de compreensão da economia leva muita gente a culpar Dilma sem necessidade?

Há um senso comum: se as coisas vão bem, o mérito é dos trabalhadores e empresários. Se a coisa vai mal, a culpa é do governo. É evidente que é ínfima a parcela da população que sabe a diferença entre lei orçamentária e lei de responsabilidade fiscal. Também há confusão entre denunciar a corrupção e demonstrar que o modelo econômico está errado, incompleto ou desatualizado.

Os jargões facilitam esse processo curioso em que a luta de classes transforma-se numa luta entre classificações: populistas, monetaristas, neoliberais, neodesenvolvimentistas, e por aí vai.

No final isso vira um debate entre desclassificados.

Como sairemos deste processo do impeachment? 

Apesar das tensões, o Brasil sai fortalecido, com instituições funcionando e sem judicialização da política ou politização do judiciário.

Haverá no futuro uma compreensão menos afoita e perspectivas mais promissoras para o debate sério sobre as relações virtuosas entre desenvolvimento econômico, Estado Democrático de Direito e direito à informação.

Teremos condições de pertencimento a um projeto civilizatório modernizador, sustentável e participativo.

 

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