O melhor a fazer com a capa da Economist sobre o Brasil é ignorá-la. Por Paulo Nogueira

Em suma: ignore
Em suma: ignore

Uma das maiores surpresas que tive ao me mudar para Londres como correspondente em 2009 foi a seguinte: lá, ninguém liga para a Economist.

A Economist, simplesmente, não é notícia entre os britânicos.

Assinei-a, no automático. Com o correr do tempo, ela ficava intocada em casa, no saco plástico em que chegara. Até que desisti da assinatura.

Ignorada na Inglaterra, ela é citada desvairadamente no Brasil, em boa parte por paroquialismo, e sobretudo quando o PT é atacado.

É o caso da última edição.

Li, a pedido de leitores, o texto. Primeiro, e acima de tudo: assim como não há motivos para sambar na avenida quando a Economist fala bem do Brasil, também não há por que tremer de medo quando acontece o oposto.

Nem a Economist elevou o país aos céus quando saudou a “nova potência” e nem atirará ao chão quando, como agora, fala da “queda”.

Quem vai fazer do Brasil um país melhor ou pior somos nós mesmos, o povo – e não revista nenhuma.

Segundo, a análise da Economist é superior ao que você vê na imprensa brasileira. Para começo de conversa, a revista admite o papel da crise internacional nas dificuldades do país, principalmente pela queda do valor das commodities, produtos de baixo valor agregado em que o Brasil é particularmente rico. (As commodities vão de minérios a frutas.)

A imprensa brasileira sempre distorceu as explicações sobre a crise ao atribuí-la, exclusivamente, a erros do governo.

Terceiro: é preciso considerar que a Economist é uma revista conservadora. Como tal, ela gostaria que o receituário thatcherista, ou neoliberal, fosse empregado no Brasil e no mundo.

É uma fórmula ótima para os muitos ricos, como mostrou a própria experiência britânica sob Thatcher, e péssima para o resto. Você corta direitos trabalhistas, baixa os impostos para os ricos, fecha os olhos para a evasão em paraísos fiscais, desregulamenta doidamente setores: tudo aquilo, enfim, que levou à crise mundial de 2008 e a uma abjeta concentração de renda.

Até os conservadores ingleses abandonaram o thatcherismo, e só por causa disso tiveram os votos que os puseram de novo no poder sob David Cameron.

Finalmente, para os mais crédulos na sabedoria infalível da Economist, um fato irretorquível. Uma revista que pretende salvar o mundo, com seu tom ridiculamente professoral, não conseguiu salvar sequer a si própria.

Ainda este ano, a editora inglesa Pearson se desfez dos 50% de ações que tinha da Economist. (Antes, a Pearson vendeu a um grupo japonês o jornal Financial Times.)

É como acontece no Brasil: a Globo não consegue resolver sequer o problema de sua novela das 9 e no entanto produz copiosamente editoriais dizendo como salvar o Brasil.

Em suma: desligue a Globo e ignore o resto da mídia que o Brasil melhora. Aproveite e faça o mesmo com a Economist.

 

 

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