É uma alegria e uma honra reencontrar Guga, agora nas páginas de um livro

Gênio
Gênio

“Toma, pai”, me deu Pedro, meu filho do meio.

Eu me preparava para voar para Londres. Era um presente apropriado: um livro.

Sob medida: uma biografia de Guga, um dos ídolos que tive na vida.

Este livro, Guga: um brasileiro, lançado pela editora Sextante, é um ótimo presente de Natal.

O texto final foi feito pelo jornalista Luís Colombini, com base em depoimentos de Guga.

O resultado é muito bom: é como se você  estivesse sentado ao lado de Guga, num bar, ouvindo suas histórias.

Fica claro, hoje, passados alguns anos, que Guga foi um quase milagre.

Os grandes tenistas do mundo aparecem em ambientes favoráveis ao tênis. Roger Federer, por exemplo, jamais teve que pagar por uma simples raquete.

Na Suíça, desde cedo ele teve, gratuitamente, tudo de que precisava para desenvolver seu tênis.

Guga não.

Quando era criança ainda, perdeu o pai. Ele estava começando a jogar tênis, incentivado pelo pai, um comerciante de caráter esportivo que se apaixonara pelo vôlei depois de adulto.

Perder o pai – quando este era juiz de uma partida de tênis num torneio de que Guga e o irmão Rafael participavam – não foi apenas uma pancada emocional para o jovem tenista.

Foi também uma pancada financeira.

Tênis é caro.

Como comprar regularmente raquete, bolinhas, tênis, uniforme? Como pagar um técnico? Como enfrentar as despesas de viagens?

Se você quer realmente ser profissional, cedo você tem que viajar para a Europa e os Estados Unidos para enfrentar os melhores.

E isto é uma coisa virtualmente impossível para quem é de classe média e perdeu o pai, como Guga.

Quando as coisas pareciam sem solução para Guga, surgiu em seu caminho um jovem técnico com alguma fama regional, no sul do país.

Larri Passos.

Guga conta no livro que Larri prometera a seu pai que treinaria o garoto na hora certa.

Com Larri, que o chamava de Cavalo, o adolescente floresceu.

Larri de alguma forma supriu a ausência do pai para Guga, e o lapidou tecnicamente. Foi com Larri que Guga passou a usar sua lendária esquerda de uma mão só.

Ele batia, antes, como era moda, com as duas mãos.

A determinação de Guga sempre foi extraordinária. Veja o postal que ele enviou a sua família de Paris, aos 15 anos, nas costas de um quadro do Louvre.

“Este é um quadro do museu do Louvre. Como ele existem mais milhares de quadros, mas este achei lindo e resolvi mandar para vocês.

Eu sou um jogador de tênis do Brasil. Como eu, existem milhares. Só que eu acho que posso ser o número 1. Por isso estou treinando muito e dando o melhor de mim.”

É um relato que parece saído de um filósofo, não de um garoto tenista brasileiro igual a “milhares de outros”.

Treinar. Dar o melhor. Não existe receita mais eficiente que esta, mas quantos conseguem segui-la sem desistir no meio do caminho, dados os sacrifícios que a jornada impõe?

Guga treinou tanto que comprometeu o quadril,  o que apressou o fim de sua carreira. Até hoje ele paga o preço do esforço formidável. Ele conta que demorou a conseguir pegar no colo os filhos. Não consegue jogar tênis, aos 38 anos, sequer entre os amigos, aos domingos, no clube.

Quando Guga se tornou o número 1 do mundo, em dezembro de 2 000, depois de bater Agassi na final de um torneio que reúne os oito melhores da temporada, ouviu do rival uma frase também filosófica.

Marcou-o tanto que está registrada no livro. “Aproveita que dura pouco.”

Como tudo, durou pouco. Ou passou rápido, como você quiser.

As memórias de Guga são uma forma de eternizar a glória de um legítimo herói nacional.

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