O factoide do sacrifício do cão de Dilma mostra que a hidrofobia da direita não parou no golpe. Por Kiko Nogueira

Dilma e Nego
Dilma e Nego

 

Quem criou o provérbio “do chão não passa” não conheceu o debate político no Brasil.

Depois da história da briga de Dilma com uma camareira em que cabides teriam voado — coisa de corrente de WhatsApp noticiada como furo por gente como Ricardo Noblat —, o novo escândalo é o “assassinato” do labrador Nego.

No sábado, dia 10, a coluna Diário do Poder, do ex-assessor de Collor Cláudio Humberto, deu uma nota sobre as “cinco injeções” que Nego tomou para morrer.

“Ao ordenar o ‘sacrifício’ de ‘Nego’, Dilma só fez piorar a sua imagem já muito negativa junto aos funcionários do Alvorada”, escreveu.

Essa versão foi reproduzida, com uma ou outra variação, internet afora. Augusto Nunes, cada vez mais xarope, conseguiu perpetrar uma crônica. “E se o bicho desandasse repentinamente a falar? Justificadamente inquieto, acabou de inaugurar a queima de arquivos caninos”, diz um trecho.

Milhares de coxas, de repente, se descobriram dog lovers e militantes dos direitos caninos. Nas redes sociais, os mesmos palhaços  que foram às avenidas paulistas da vida fingiam indignação e exercitavam seu ódio. Dilma foi apelidado de Cruella De Vill (o humor definitivamente não é o forte desse pessoal).

O site boatos.org fez o que canalhas experimentados não fariam: ligou para a assessoria do Planalto. Nego foi um presente de José Dirceu e estava com Dilma desde 2005. Apareceu na propaganda da campanha de 2010.

Uma veterinária alertou que ele não aguentaria a viagem até Porto Alegre por estar velho e doente. Ficará em Brasília com um amigo da ex-presidente.

Em miúdos: a sugestão de um especialista foi acatada. Se a orientação fosse no sentido de sacrificar Nego por motivos de saúde, provavelmente isso seria feito. Quem tem um animal em casa sabe que, em 99% das vezes, é assim que funciona. Fim.

Há alguns anos, você teria o direito de se indignar com esse factoide de baixíssimo nível. Hoje ele é tão natural quanto uma coluna de Míriam Leitão culpando a “herança maldita” do lulodilmismo pelo fracasso do governo Temer.

Na jabazeira Jovem Pan, um “consultor” explicava que a decisão de levar Nego seria mais acertada. “A quantidade de pets que voa é imensa”, cravou um tal Alexandre Rossi. Dilma feia, chata, gorda, terrorista, gerentona, mandona, dentuça, petralha é agora a Mengele do canil.

O que se deseja com uma falsa polêmica dessas? A quem interessa? Ela já foi apeada do poder e Temer está tentando se equilibrar numa cadeira que não lhe pertence até 2018.

Ressentimento? Uma justificativa para a burrada feita pelos golpistas? Falta do que fazer?

Não. O caso de Nego serve para mostrar que a hidrofobia da direita não parou no golpe e que os donos dessas bestas terão de lidar com elas por um looongo tempo.

 

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