O escritor que fala em nome de todos nós, homens

Roth

Que Philip Roth jamais vai ganhar o Nobel de Literatura é um dado desagradável da vida que só nos resta aceitar.

Roth, um gigante das letras, é muito iconoclasta para ser agraciado pela Academia Sueca. Suas páginas têm muita corrosão, muito sarcasmo – e muito sexo. Roth não cabe na Academia.

Mas existem outros prêmios, e fiquei feliz ao ler nesta semana que Roth recebera o prestigiado  Man Booker Prize.

Nenhum escritor retratou tão bem, ao longo de uma carreira já tão longa, o drama do homem contemporâneo, esmagado pelas circunstâncias e pelas obrigações – e desesperado por não perder a única coisa que realmente importa: a virilidade, a potência, a capacidade de ver uma mulher nua e disponível à sua frente e penetrá-la gloriosamente.

Em um de seus romances, o protagonista enfrenta um dilema sinistro. Tem problemas cardíacos. Se tomar remédios, prolonga a vida, mas impotente. Se não tomar, a alternativa é uma cirurgia em que as chances de ele sair dela para o cemitério são grandes.

É claro que, como todo homem mentalmente são, o personagem de Roth opta pela morte potente sobre a existência desvirilizada.

A carreira de Roth caminhou em paralelo com outro gênio americano de sua geração, John Updike. A série do “Coelho”, de Updike, é um retrato magnífico dos Estados Unidos em sua glória e miséria nos anos 60 e 70. Nos dois o sexo fala alto, grita — mas com uma elegância na prosa que dá inveja a quem escreve.

Roth é um modelo para quem considera que para combater o bom combate na vida você tem que se expor. Suas histórias têm um fundo francamente autobiográfico. Isso permitiu a sua ex-mulher processá-lo uma vez por julgar que ela aparecia de maneira negativa num romance dele que – apenas teoricamente – era ficção.

Meus Roths favoritos são “Pastoral Americana” e “Casei com um Comunista”, mas o leitor pode comprar qualquer livro dele que sairá da leitura enriquecido.

Seus últimos romances são mais curtos – num paralelo interessante com outro grande artista judeu americano de sua geração, Woody Allen, com seus filmes compactos e descompromissados desde A Era do Rádio – e extremamnete amargos.

A velhice atormenta Roth, sobretudo pelo fantasma da impotência.

Mais uma vez, aí, ele fala em nome de todos nós, homens.

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