O elogio do horário civilizado

No Borough Market, que não abre aos domingos

Uma das melhores coisas de Londres são os horários.

Eles são civilizados.

A cidade gira em torno do metrô.  Peças de teatro, jogos de futebol, concertos musicais, nada começa depois das 8 da noite. Quase sempre às 10 você já já na rua, pronto para ir a um restaurante comer alguma coisa e depois pegar o metrô de volta para casa.

Meia noite a cidade está dormindo. O metrô já não funciona. Você pode ainda usar o late bus – que avança pela madrugada – se perder a hora.  Ou um táxi, claro. Mas são poucas as pessoas que fazem isso.

Em Londres o horário de trabalho é das 9 às 5 ou 6. É bom, não ruim. Há mais vida além do trabalho. Se você dorme sete horas por dia, isso significa que você dedica metade de seu tempo acordado ao trabalho. É pouco?

Infelizmente os brasileiros herdamos, por macaquice, o vício do excesso de trabalho dos americanos.

Mas notemos. Existe alguma coisa que não possa ser feita das 9 às 6 no serviço? Você tem que ser muito confuso para não liquidar todas as suas tarefas diárias em tantas horas. Se não fez o que tinha que fazer no horário normal, por que faria depois? Pense nisso quando ficar no serviço até tarde.

De resto, veja. O país que é campeão do workaholismo – os Estados Unidos – enfrentam há tempos uma crise aguda. Declinam na mesma velocidade com que a China avança. De que está adiantando tanto trabalho?

Dos excessos de tudo, incluído o trabalho, os americanos estão colhendo a ruína. Como gostam de comer pipoca e BigMacs enquanto trabalham, estão construindo uma decadência obesa e de alto colesterol.

Talvez eles pudessem pensar melhor, não tanto a curto prazo, se tivessem um horário de trabalho mais civilizado.

Se eu pudesse voltar atrás, não tomaria mais sorvete, como escreveu Borges, até porque tomei um bocado. Mas com certeza refaria meus horários de trabalho.

Longos mais que o necessário, penosos além da conta, eles jamais contribuíram para minha produtividade — e nem para a minha paz de espírito.

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