O elogio do casamento

Cezanne não apreciou o livro do amigo

Casar é ruim para os artistas. Cerceia a criatividade. Faz a arte ceder espaço a trivialidades domésticas, como pagar as contas.

Este é um conceito universalmente aceito.

Emile Zola, o grande romancista francês de “Germinal”, se insurgiu contra. Assim como se rebelara, como jornalista, contra a má vontade com que o mundo empoeirado das artes em Paris recebera a inovação de pintores como Manet, Monet e Cezzane.

Em “A Obra” Zola aparece como Sandoz, um jovem jornalista. É o romance em que ele mais se coloca pessoalmente. Numa conversa com Claude, um pintor que está tentando viabilizar a carreira, Sandoz o critica por não casar com a mulher por quem era apaixonado. Ele próprio, Sandoz, avisa ao amigo que em breve vai casar.

Por Sandoz, Zola faz o elogio do casamento. A mulher, afirma ele, traz a disciplina, o equilíbrio necessário para que o artista possa se concentrar em seu trabalho.

Claude acaba se casando. Mas, paradoxalmente, dadas as opiniões de Zola, vive um casamento trágico. O pintor criado por Zolá tem um filho com problemas mentais e jamais se acerta na vida dentro de uma família. Acaba se enforcando.

Isso mostra que Zola talvez não estivesse tão convencido assim das virtudes matrimoniais. Ele próprio se casou formalmente, mas acabaria tendo dois filhos fora do lar.

Manet foi, segundo a maior parte das interpretações, a fonte de inspiração de Zola para o personagem de Claude. Mas também Cezanne, amigo de infância de Zola, é citado.

O que é inegável é que Cezanne não gostou nem um pouco do romance do amigo. A amizade entre os dois terminou nele.

Para a posteridade, talvez por obra de mulheres casamenteiras, não ficou o casamento miserável de Claude. Ficou o elogio conjugal de Zola, cujas palavras você encontra espalhadas em muitos lugares na internet.

Quanto a mim, minha opinião é que, bem, minha opinião não vem ao caso.

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