O Diário no Japão, acompanhando a saga corintiana

Nossa correspondente conta suas aventuras com o bando de loucos em busca do bi Mundial

A Fiel torcida a caminho do estádio

 

Errei.

Pensei que pudesse partilhar com vocês esta jornada alvinegra em terras do Oriente mas qual o quê… Vou tentar, mas não há palavras. (Talvez o jornalista inglês Scott Moore, que está vindo para cá, tenha a frieza britânica necessária para narrar aos leitores do Diário a saga alvinegra com as palavras da razão e não da emoção.)

Nunca antes na história deste planeta tantos se deslocaram para o mesmo ponto sem estar em guerra. Nunca antes uma tamanha multidão atravessou meridianos e fusos horários com tamanho sacrifício para combater o bom combate, cantar sua paixão e cobrir o espaço/tempo com suas cores, seu ritmo e sua magia.

Podemos discutir o futebol, jogadores, técnicos, estratégias. Mas a Fiel não se discute, se curte. A festa dessa torcida – um bando de doidos, sim, todos, porém de uma diversidade digna da pátria amada – não tem rival. Nem nunca terá.

De manhã cedo, o ar de Tóquio já estava dominado pelo português com vários sotaques, sempre em volume mais elevado do que o dos locais… Bandeiras, camisas, faixas, bonés e o que a incansável imaginação dos manos tinha criado e trazido pra cá compunham uma paisagem colorida em branco e preto.

Os amigos da nossa enviada, no trem para Toyota

A estação de trem de onde se embarca para o estádio Toyota, parando em Nagoya e de lá seguindo de metrô, era nóis.

Os grupos se misturavam e descobriam conhecidos comuns, acabando com os seis graus de separação – era tudo um só.

Foi assim com o André, que se sentou ao meu lado porque não tinha mais lugar junto do grupo dele. Em poucos minutos, os amigos dele foram chegando para ver que conversa animada era aquela, uma intimidade instantânea, gostosa. Tirei um monte de fotos, tomara que passem um pouco da sensação de familiaridade que era a tônica dos papos entre os manos dos vários tipos.

Resolvi pegar um hotel em Nagoya e dormir lá depois do jogo. Meu grupo seguiria direto para Tóquio. Então, ao chegar a Nagoya, me separei deles e fui deixar a mochila no hotel. Peguei meu ingresso e me despedi. Maria, minha sobrinha, se assustou: “mas e aí, você vai sozinha pra Toyota?” E eu: “Dificilmente, querida”.

Batata: entrei no hotel, dei de cara com um grupo de rapazes uniformizados. Cheguei perto e perguntei: posso ir com vocês pra Toyota? “É claro, mano”.

Outro dia estive num restaurante em que eu era a única de olhos redondos. Pois em Nagoya, ontem, éramos todos olhos redondos. Uns de nascença, outros de espanto.

Resultado: às 16h, chegamos à estação de onde se podia avistar o deslumbrante estádio, o que jogou nossa ansiedade para fora do limite.

Soltamos logo “aqui tem um bando de loucos” a plenos, pleníssimos pulmōes, contrariando tudo o que ensinara o Guia do Torcedor, mas não tinha outro jeito, não.
O caminho pro estádio, a pé, é muito lindo, passa por uma ponte fantástica, as luzes já começando a se acender, o frio, caramba, fazia Tóquio parecer o Rio de Janeiro em 1976. A caminhada ia deixando tudo cada vez mais com cara de Pacaembu: vendedores de faixas, bandeiras, camisetas, gorros, cachecóis, comidinhas brasileiras, muita cerveja, rebatizada de biro-biro (eles aqui falam birô, do inglês beer). Daí pros corintianos transformaram em biro-biro foi um instante e a coisa se espalhou tanto que os próprios japoneses anunciavam: “biro-biro!”

O que que foi entrar naquele estádio? Naquela coisa mais linda, Iimpa e organizada que eu já vi? Bom, por esse lado não parecia tanto com o Pacaembu… Mas que a gente tava em casa, tava. As faixas anunciavam a origem dos torcedores. Tinha de tudo: Maranhão, Pirapora, Maringá, muitos lugares, um só coração.
E quando a Gaviões puxou a batucada? De arrepiar! Aqueles bandeirões balançando, o estádio se enchendo, cantando, todo mundo confraternizando, ô coisa linda! De repente, um falava: é nóis, mano! E dava pra ler todo o esforço que tinha custado estar aqui, neste momento, pra poder encher a boca.

A cada minuto, sem exagero, a temperatura caía e a multidão aumentava, o nervosismo crescia e era só biro-biro que rolava.
Retirar os ingressos comprados pela internet foi uma loucura, a fila era imensa, demorou muito, mas todo mundo tinha chegado cedinho. Ah, sim! Estava acontecendo o jogo do Auckland com o Hiroshima, o telão maravilhoso mostrando as jogadas bonitas… Os japoneses venceram, nessa hora o frio externo e o interno estavam quase insuportáveis, tá na hora, vai acontecer tudo agora!

De manhã, me permiti passar no lindo templo ao lado do hotel, jogar a moeda, tocar o sino, bater palma duas vezes e meditar fervorosamente para que tudo corresse bem. Expliquei que não se tratava de uma simples partida de futebol, mas da alegria e autoestima de muitas pessoas merecedoras dessa emoção. Que as forças do universo se unissem para favorecer um final feliz.
Ou melhor, uma semifinal feliz.
Para que houvesse, aí sim, a final, afinal feliz.

Minhas preces foram atendidas. Pelo menos a primeira parte.

Guerrero atende as preces alvinegras

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