O Cavaleiro das Trevas Ressurge: muito barulho por quase nada

 

O homem-toupeira contra o homem-morcego

 

O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que estreia hoje no Brasil, fez menos dinheiro do que se esperava nos EUA. A produção de 400 milhões de dólares faturou, no primeiro fim de semana, 162 milhões, 30 milhões abaixo do esperado. Pode ser efeito do massacre no Colorado, pode ser apenas um interesse menor do que se supunha na história do homem fantasiado de morcego, ou, eventualmente, as duas coisas combinadas. 

O filme entrega a mercadoria se você for um fã do personagem atormentado que o desenhista e roteirista conservador Frank Miller criou e se queria realmente saber quem, afinal, é a filha de Ras Al Gul, por que diabos Bruce Wayne está de muletas e o que Harvey Dent tem a ver com isso. Também existe uma curiosidade antropológica, vá lá, depois dos tiros em Denver. Se quer apenas se divertir, pense duas vezes. 

É violento, emocionante, com efeitos visuais incríveis – mas é mais um filme de super-herói. Talvez um pouco melhor que os outros. Ponto. Batman veste negro, não usa a cueca por cima da calça e seu uniforme não é azul e vermelho, mas, doutor, eu não me engano, seu coração é americano.  

Ele é como tantos ícones dos Estados Unidos: o cavaleiro solitário que se ergue contra as injustiças usando determinação e força de vontade.

Gotham City nunca foi tão Nova York. A grande ameaça é o vilão Bane, um terrorista interpretado por um bombado Tom Hardy, que dá uma surra em seu adversário, quebrando-lhe algumas costelas (na HQ original, ele fica paraplégico) . Bane usa uma máscara que lhe tapa a boca, dando-lhe a aparência de uma toupeira do mal, o que não impede que suas palavras soem misteriosamente claras como as de um pastor evangélico de televisão (mas, ei, estamos falando de um filme em que ninguém reconhece um cara que está usando uma máscara de morcego que deixa metade de seu rosto de fora). 

O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um acerto de contas do 11 de Setembro com algumas pitadas de atualidade: os bandidos não apenas lembram os manifestantes do movimento Occupy Wall Street, como ocupam e explodem a Bolsa de Valores. “Esta é a Bolsa. Não tem dinheiro para ser roubado”, diz um corretor para Bane. “Sério? Então por que vocês todos estão aqui?”, responde ele. 

Mas não se engane. Não há meios tons ou críticas ao status quo. Bruce Wayne é um milionário gente fina, que financia várias instituições de caridade. Anda meio deprimido, barbado e não sai de casa, mas nada que seu mordomo Alfred (Michael Caine, que sempre parece estar se divertindo mais do que os outros) não resolva. Alfred sonha em um dia encontrar o patrão num café, sorridente, com a esposa ao lado, e ameaça até mesmo abandoná-lo se ele voltar com aquelas ideias birutas de salvar a humanidade. É uma relação homoerótica? Para que não paire nenhuma dúvida, Bruce Wayne transa com Brenda, uma executiva interpretada por Marion Cotillard, ao lado de uma… lareira, o que parece uma cena de um comercial do cigarro Luís XV dos anos 70. Ele ainda dá uns beijos na Mulher Gato (Anne Hathaway, a mulher mais bonita dentro de uma roupa de couro, depois de Scarlett Johansson). 

Não é o caso de se preocupar com as crianças. Apesar de todo o blábláblá pseudoexistencialista e de todo o barulho, é um filme infantil: os bandidões não têm outra motivação que não seja a de destruir o mundo com uma bomba atômica e a polícia é honesta e boazinha (especialmente um dos policiais, papel de Joseph Gordon Levitt, que pode encarnar Robin na sequência). Muitas plateias americanas estão aplaudindo o final apoteótico depois de quase três horas de projeção (meia hora a menos não faria a menor falta). No Brasil, não deve ser diferente. Batman é, afinal de contas, um bom menino.

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