O Batman de Christian Bale assassinou o bom humor

 

 

Bale como Batman

Barrigudo, tímido, eventualmente desajeitado, sempre com Robin antes de isso virar piada – e engraçado. O Batman de Adam West, o segundo ator a envergar a fantasia do superherói na TV, seria hoje abatido a tiros pelos fãs. Os mesmos fãs, aliás, que ameaçaram de morte os poucos críticos que não elogiaram O Cavaleiro das Trevas Ressurge, cuja estréia mundial ocorre no dia 20. West deu ao personagem uma leveza que se perdeu ao longo do tempo, especialmente depois da revisão promovida pelo escritor e desenhista Frank Miller, que injetou em Batman uma carga de drama, seriedade e gravidade da qual ele nunca mais se recuperou a partir de O Cavaleiro das Trevas, de 1986.

Miller redefiniu o perfil psicológico do homem morcego. Se ganhou em profundidade e desespero, Batman perdeu em graça e, vá lá, inocência. A série dos anos 60 era a expressão máxima da estética camp – o kitsch com influências psicodélicas. Os quadrinhos ainda não tinham virado grande arte, seja lá o que isso quer dizer, a não ser pelas reproduções de Andy Warhol e Roy Lichtenstein.

West era um canastrão. Nunca mais conseguiu se livrar do papel que interpretou entre 1966 e 1968. Hoje, faz o prefeito Adam West da série de animação Family Guy e ainda aparece em convenções de fãs do seriado. O Batman de Frank Miller consolidou uma tendência que começou nos anos 70, quando os super-heróis foram ficando mais sérios, mais adultos e mais humanos, não necessariamente no bom sentido. Lembro-me de uma história clássica (que recuperei recentemente num sebo na Galeria do Rock, em São Paulo). Chamava-se De Quantas Maneiras Se Pode Matar Robin. O roteiro é de Frank Robbins e Dennis O’Neil, com desenho de Irv Novick. A edição, em capa dura, era da Ebal, parte de uma coleção chamada Batman em Cores. Nosso herói precisava encontrar seu parceiro (ops) antes que ele fosse eliminado. Até lá, ele topava com execuções impressionantes de manequins de Robin. (Ou seja, a vontade de destruir Robin já estava no inconsciente coletivo há algum tempo).

O Cavaleiro das Trevas Ressurge foi consagrado por antecipação. Bale, um excelente ator, consegue encarnar toda a angústia gótica do mundo. Bruce Wayne é um justiceiro, um vingador solitário, um misantropo que age no limite entre a justiça e o linchamento, um cara soturno, um suicida assexuado que vive numa caverna sem nada para fazer a não ser caçar bandidos em sua solidão milionária (ou tédio). A única família que tem é o mordomo Alfred, um tipo anacrônico, espécie de babá sem vida própria cuja vocação é servir e ser subjugado por um milionário. Os vilões são terroristas que querem destruir tudo. É tudo muito tenso, muito triste, muito sombrio e muito sério.

Nada a ver com aquele gorducho que corria para o telefone vermelho do comissário Gordon assim que a coisa apertava e que, um dia, usou o batspray com repelente de tubarão para livrar-se do bicho quando ele mordeu sua perna durante uma absurda fuga em alto-mar. A maior vítima do Batman de Christian Bale é o bom humor.

 

 

 

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