O autor de O Perfeito Idiota Latino-Americano é um perfeito idiota latino-americano

Carlos Alberto Montaner afirmou que Chávez seria batido com base num suspeitíssimo instituto de pesquisas

Milongueiro

Eu acuso.

Acuso o cubano expatriado Carlos Alberto Montaner de ser um idiota. Um perfeito idiota. Mais ainda: um perfeito idiota latino-americano.

Ou seja: Montaner não sabe, mas se enquadra dentro daquilo que ele escreveu com dois outros autores: O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano. É um livrinho de 1996 feito para lamber as botas dos ricos e celebrar um tipo de administração que mundialmente se comprovou ruinosa, como se veria na crise econômica de ordem global iniciada em 2007.

Por que Montaner é um perfeito idiota?

Considere como ele tratou as eleições presidenciais venezuelanas. Num artigo publicado dias antes delas, Montaner afirmou que ficava com os números apresentados por um instituto de pesquisas chamado Consultores 21.

Montaner fez um elogio rasgado do instituto – que tem um histórico de erros sensacionais em previsões invariavelmente negativas para Hugo Chávez. Entre comentaristas venezuelanos, difundiu-se a crença de que, diante de tantos e tão grosseiros erros, a única explicação para a sobrevivência do Consultores 21 é dar munição aos suspeitos de sempre para que, depois, aleguem que Chávez roubou.

Ninguém com um mínimo de conhecimento de Venezuela respeita o Consultores 21. Mas Montaner, em sua extraordinária idiotice, o louvou. Escreveu que seu dono é um homem de “prestígio”.

A maior parte das pesquisas davam uma vitória folgada para Chávez, por volta de 10 pontos percentuais – o que de fato aconteceu. Mas o Consultores 21, nas vésperas da eleição, afirmou que Caprilles, o adversário de Chávez, estava na frente.

E Montaner acreditou. Ou fingiu acreditar. Ou por má fé cínica ou por obtusidade córnea, para usar a grande expressão de Eça, Montaner mostrou ser a mais acabada representação do perfeito idiota latino-americano.

Montaner tem num anônimo editorialista da Folha uma alma gêmea. Num editorial em sua edição de hoje, a Folha chamou Chávez de ‘caudilho’ e pareceu profundamente incomodada porque os eleitores venezuelanos não votaram em quem o jornal gostaria que votassem.

As políticas públicas de Chávez – uma série de novas universidades gratuitas, a assistência médica aos mais pobres por conta dos excelentes médicos cubanos que estão na Venezuela etc – foram tratadas como ‘clientelismo’.

Otavio Frias Filho nunca teve que ganhar um voto além do paterno para ficar 30 anos no comando na Folha, e ainda assim vê com estranheza alguém que só se mantém no poder por conta das urnas.

Que fique claro. Montaner, para voltar a ele, tem todo o direito de ser contra Chávez. Todo mundo tem. Democracia é um embate de visões que se resolve nas urnas. Vox populi, vox Dei, como dizia um velho vizinho meu, Doutor Dorival, talvez o último latinista.

Mas falsificar a realidade com base em pseudoestatísticas oriundas de um instituto que ninguém leva a sério por cometer seguidamente disparates como o de agora, em que apontou um vencedor que ficou dez pontos atrás — isso é coisa de idiota.

De perfeito idiota.

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