O ataque de Olavo de Carvalho à turma da Mônica. Por Luiza Gadelha

Coisa de comunista, para Olavo de Carvalho
Coisa de comunista, para Olavo de Carvalho

É vergonhosa a maneira como a direita brasileira vem se comportando: sem checar os fatos, distorce discursos e pautas dos direitos humanos que deveriam estar presentes em toda e qualquer sociedade, e transformam-nas em temas exclusivos da esquerda. Desde quando a luta por mais direitos como a igualdade de gêneros, igualdade racial, casamento homoafetivo e afins é coisa de “comunista”?

Tudo começou com uma história da revista Turma da Mônica Jovem, intitulada Dentuça, eu?, em que, após a pressão dos amigos para que utilize aparelho dentário, Mônica lhes responde que não, utilizando a conhecida expressão “meu corpo, minhas regras”.

Ora, o conceito de beleza é relativo e cultural e Mônica parece fugir de todos os padrões físicos e comportamentais impostos pelo patriarcado à mulher ocidental: é gordinha, baixinha e dentuça; mandona, ranzinza, bate nos meninos que se arriscam a xingá-la. Nada mais natural que, na adolescência, Mônica se recuse a consertar seus dentes simplesmente para ceder a padrões estéticos.

Eis que chega o guru da direita, o filósofo (porque para ser filósofo não basta muito) Olavo de Carvalho, e distorce uma história em quadrinhos, tratando-a como apologia ao aborto, simplesmente porque Mônica usou a expressão feminista “meu corpo, minhas regras”. Claro, na cabeça do mentor intelectual de Bolsonaro, faz tudo parte de uma conspiração comunista para gerar lavagem cerebral em criancinhas.

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O post de Olavo de Carvalho engendrou uma série de insultos e ameaças à roteirista da história, Petra Leão. “Recebi muitas mensagens agressivas, principalmente com ofensas pessoais e ameaças à minha carreira (e algumas à minha integridade física). Espalharam até umas fotomontagens usando meu rosto, pra me difamar e manchar minha imagem mesmo. Precisei trancar meus perfis nas redes sociais para impedir que pegassem fotos, posts e tweets meus e tirassem de contexto, da mesma forma como fizeram com o quadrinho”, disse a roteirista.

Para defender Bolsonoro, Olavo de Carvalho se vale das mesmas táticas, a pura e simples descontextualização e manipulação do discurso alheio. Desde que o deputado Bolsonaro virou réu do STF por incitação ao estupro, Olavo de Carvalho tem argumentado que a declaração de Bolsonaro foi uma “ofensa brutal, mas não uma apologia do estupro”, usando comparações como “Dizer de um cavalo velho e capenga: “Este cavalo não merece ser roubado” é fazer apologia do roubo de cavalos?”

É realmente perturbador e vexatório perceber que pessoas como Olavo de Carvalho são tidas como símbolos intelectuais atualmente. É, ademais, grave e perigosa a intolerância que tem tomado conta do discurso coxinha. Do discurso do ódio à violência física e até mesmo ao assassinato é apenas um passo, como bem mostra o chocante assassinato de um estudante negro e homossexual na UFRJ.

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