O assédio sexual na Playboy, a revista que veste mulheres de coelhinhas para “empoderá-las”. Por Nathalí Macedo

André Luís Sanseverino e Marcos Aurélio de Abreu, donos da Playboy

 

“Parece que tá na moda esse negócio de assédio”, disse o estranho de óculos e camisa florida que sentava atrás de mim no ônibus.

“Esse negócio de assédio”, pensei, sempre esteve na moda. Pergunte pra a sua avó. Pergunte a qualquer mulher da sua família. Esse negócio de assédio sempre foi autorizado aos homens, especialmente a determinados homens, e em todos os lugares do mundo.

“Esse negócio de assédio” contra as mulheres pretas, então, acontece desde  a senzala, desde quando o Brasil nem era Brasil.

O que está na moda – na verdade, a única moda que incomoda as pessoas conservadoras e não empáticas, nesse caso – é denunciar. As pessoas não querem ser confrontadas com uma realidade que teoricamente não lhes afeta.

Não querem que a gente quebre o silêncio porque não podem lidar com nosso barulho. Não querem os mal-intencionados que as mulheres denunciem, na verdade, porque a continuidade da naturalização do assédio é conveniente para a maioria dos homens.

Para esses homens, é justo dizer, não são tempos confortáveis.

Em todos os nichos, em todos os níveis e em todos os lugares, mulheres têm denunciado assédios. No cinema, Bertollucci foi rechaçado pelo abuso contra Maria Schneider em um estupro filmado em uma das cenas de “O último tango em Paris.”  Na televisão aberta – que ainda deve ser relevante para alguém em algum lugar distante – José Mayer foi denunciado por um set de gravação inteiro depois de assediar uma figurinista. Na música, a gravadora Sony Music dispensou o produtor Dr. Locke depois de várias denúncias de assédio de cantoras pop, como Kesha, Kelly Clarkson e Katy Parry.

Agora, um grupo de modelos acusa os donos da editora PBB Entertainment, responsável pela publicação da revista Playboy no Brasil, de assédio sexual. E sai no Fantástico – que ainda deve ser relevante para alguém em algum lugar distante.

André Sanseverino foi acusado de propor sexo às vítimas em troca de trabalhos como modelo. Fora o fato de que todas que recusaram a proposta foram dispensadas, como acreditar que uma revista que veste suas modelos de coelhinhas sensuais durante seus eventos “repudia toda forma de desrespeito contra a mulher”, como declarou a PBB Entertainment?

A nota em questão dizia ainda que “ao longo de sua história, vem coadjuvando em defesa e em busca da liberdade e empoderamento das mulheres, não somente no Brasil, mas em todo o mundo”.

É pra rir. E ao mesmo tempo é cansativo porque é o mesmo modus operandi de sempre: as vítimas acusam, o assediador nega, a empresa que responde por ele tira o corpo fora. Absolutamente nada novo sob o sol, a não ser o fato de a famigerada reportagem da semana do Fantástico ter sido sobre uma denúncia de assédio, porque denúncias de assédio dão audiência.

Pois é, o dia chegou.

“Tá na moda”, eles dirão, e eu sou empática a ponto de compreender a tensão de alguns desses homens incomodados com a onda de denúncias: “Se até José Mayer está rodando, o que será de nós, assediadores mortais?”

Pois é. Serão tempos cada vez mais difíceis para vocês, assediadores, violentadores, machistas e misóginos.

Para as mulheres, felizmente, tá na moda reagir.

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