Nosso Trump: Russomanno quer um muro para proteger a cracolândia dele. Por Mauro Donato

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Um dia depois que o prefeito Fernando Haddad anunciou a ampliação do programa Braços Abertos para outras regiões da cidade, o deputado federal e candidato à prefeitura de São Paulo pelo PRB, Celso Russomanno, disse em entrevista ao Estadão que, no que depender dele, irá isolar a área da cracolândia, instalar barreiras policiais e acabar com o programa municipal de combate ao uso do crack.

“O que eu faria na cracolândia? Três barreiras de fiscalização para a pessoa chegar lá. Qualquer policial pode fazer a revista. Será uma barreira a cada quarteirão para impedir entrada da droga”, afirmou Russomanno. Para justificar porque encerraria o projeto, alegou: “O poder público está pagando para que se consuma drogas dentro de hotéis.”

Com sua total inépcia misturada com arrogância e ignorância sobre o tema, Russomanno acredita que pode tratar um tema de saúde subindo cercas de alambrado. Russomano é nosso Donald Trump. A solução para ambos é a construção de muros, barricadas e trincheiras. Se para Trump os refugiados são bandidos terroristas, para Russomanno os dependentes químicos não passam de malandros e vagabundos.

Mais tacanha ainda é a solução de tocar a polícia em cima. Como se isso já não tivesse sido tentado por todos os antecessores de Haddad e com resultados desastrosos. Como sói passar-se na mente dos conservadores, a medida de convocar forças militares para todo e qualquer problema demonstra o grau de reatividade e cegueira para a origem do problema. A polícia é, por si só, uma das maiores senão a principal responsável pela eternização da cracolândia ou de qualquer outro ponto onde haja tráfico.

Em janeiro de 2014 acompanhei ao longo de dois dias a implantação do projeto Braços Abertos e a desocupação dos barracos da cracolândia na região da Luz, no centro de São Paulo. O programa da prefeitura cadastrou cerca de 500 usuários e abrigou-os em hotéis nas ruas onde existia o “fluxo”. Além da moradia, o programa oferece uma remuneração diária para quem trabalhar na varrição de ruas e zeladoria das praças.

Foram dois dias de uma tensão latente em virtude da maciça presença de políticos, imprensa, coordenadores e assistentes sociais, agentes da prefeitura. Quarenta e oito horas com o tráfico e o consumo suspensos. A todo momento eu me perguntava quando aquilo iria entrar em colapso, fosse por crises de abstinência, fosse na revolta dos traficantes pela interrupção das vendas. Pouco tempo depois de fato houve uma deflagração que em minha ingenuidade não previ: quem entrou em colapso com aquela interferência toda foi a polícia.

Sem nenhum aviso prévio nem autorização de ninguém, uma operação atabalhoada com bombas, tiros e detenções quase colocou tudo a perder. A Corregedoria da Polícia Civil suspeitou e passou a investigar o envolvimento dos agentes (alguns inclusive do Denarc) na cracolândia. Agora, mais de dois anos depois, o fluxo voltou a ter a dimensão ‘normal’ de sempre e são comercializados cerca de 100 kg de crack por mês na região. A polícia está lá, os usuários estão lá e os traficantes também. Todos no mesmo lugar. Celso Russomanno nunca parou para se perguntar o que há de errado?

Apesar do ‘esquema’, o que o candidato que bolinava dançarinas em bailes de carnaval precisa saber é que o programa tem bons resultados para revelar e por isso será ampliado para para outras cinco regiões da cidade. Esses locais sofreram com um efeito colateral da ação: a implantação do projeto e a intensificação do policiamento nos primeiros dias de 2014 pulverizou a cracolândia central em diversos mini fluxos pela cidade. Mas ali no centro, onde o programa persiste, os dados são positivos.

As avaliações feitas ao final do primeiro mês do Braços Abertos davam conta de que os participantes do programa haviam reduzido de 50% a 70% seu consumo de crack. Hoje, 88% dos beneficiários da ação afirmam ter reduzido drasticamente o consumo e quase 85% estão em tratamento de saúde (segundo a Secretaria de Comunicação da Prefeitura a partir de uma pesquisa feita por assistentes sociais que atuam junto com os dependentes químicos).

Este é um dado importante pois uma diferença gritante entre os programas municipal e estadual está na forma como a questão é conduzida. Enquanto o programa do governo do Estado prevê até a internação compulsória muitas vezes, o da prefeitura trabalha no conceito de redução de danos, fazendo com que o dependente químico, com mais dignidade e direitos respeitados, deixe gradativamente o consumo de crack e outras drogas e busque o tratamento por determinação e iniciativa próprias.

“O grande mérito do programa é que nós tivemos a atitude de ir lá e conversar com eles sobre a política a ser adotada. Nós tomamos aquelas pessoas como sujeitos, capazes de firmar acordos e entendimentos, e não como párias da sociedade”, afirmou Fernando Haddad recentemente no Congresso Brasileiro de Saúde Mental que teve o programa como tema.

O  combate ao crack é difícil e tem que ser realizado com persistência, continuidade, sem mágicas nem truculências. Ainda durante o congresso, o prefeito questionou os interesses envolvidos na questão: “Há pessoas que vivem da miséria humana para enriquecer. Infelizmente esta dimensão não é tratada como deveria. Quem ganha com aquilo? Tem alguém ganhando dinheiro ali, não é pouca gente, não é pouco dinheiro. É isso que deveria ser perguntado pela sociedade.”

É isso que Celso Russomano deveria refletir antes de sair ventilando soluções típicas de um imediatista despreparado.

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