Nosso colunista foi até a Jamaica para conhecer o hotel em que Ian Fleming criou Bond. James Bond

Num resort espetacular, em meio à fumaça dos 70 cigarros diários, Fleming inventou seu espião

Fleming com seu companheiro fiel, o cigarro

É meio século de Bond, James Bond, e o jornalista e escritor Dagomir Marquezi é um de seus mais fanáticos admiradores. Dagô leu não apenas todos os Flemings, mas os livros de romancistas que deram continuidade às aventuras de 007. Para escrever sobre Bond, Dagô foi até a Jamaica, onde Fleming, num resort paradisíaco chamado Goldeneye, criou o mais célebre espião da história da ficção. Lá, recolheu material para uma série que publicaremos em capítulos.

Capítulo 1 – NASCE UM ESPIÃO

15 de janeiro de 1952. Ian Fleming veste um calção branco, camisa colorida e um par de chinelos negros. Observa à sua frente a mansidão do mar do Caribe. O Comandante, jornalista e ex-espião, está inquieto. Fuma o primeiro dos 70 cigarros de cada dia. Desce a escada para sua pequena praia particular, coloca sua máscara, mergulha nas águas quentes de sua pequena praia particular em Oracabessa, costa norte da Jamaica.

Fleming volta para pequeno pedaço de areia. Sobe a escada de pedra. Passa pela criada Violet, que limpa os restos do café da manhã na sólida mesa entre as duas árvores. Passa pelo jovem Ramsey, que cuida do jardim. O Comandante vive as últimas semanas como um homem solteiro. Vai se casar aos 43 anos com Anne Geraldine Charteris numa época em que os homens se separavam com essa idade. Permanece tenso, inseguro com seu futuro. Sua noiva está grávida. Anne percebe a tensão. “Ian, você está uma pilha de nervos. Eu vou continuar a pintar meu quadro no jardim. Por que você não tenta se acalmar escrevendo alguma coisa?”

O hotel na Jamaica em que Bond nasceu

O Comandante entra na ampla sala de sua casa, Goldeneye. Vira para a esquerda e chega ao no quarto. Fecha as persianas para se concentrar. Senta-se na escrivaninha de canto de mesa. Coloca a máscara de mergulho no canto. Encaixa outro cigarro na ponta da longa piteira.

Pega a primeira das folhas de papel em branco compradas na Madison Avenue dez dias antes. Coloca a folha em branco na sua máquina Imperial. “Escreva alguma coisa”, tinha dito Anne. E o Comandante escreve:

O cheiro e a fumaça e o suor de um cassino são nauseantes às três da madrugada. Nessa hora o desgaste produzido pelo alto jogo – uma mistura de ambição e medo e tensão nervosa – se torna insuportável e os sentidos despertam e se revoltam contra isso. James Bond de repente percebeu que estava cansado”.

Antes do almoço o Comandante já tinha as primeiras 2 mil palavras de Casino Royale.

*    *    *

7 de dezembro de 2011. 59 anos, 10 meses e 22 dias depois eu estou na mesma escrivaninha do mesmo canto do mesmo quarto. A mesa do breakfast continua firme lá fora entre as duas árvores. O mar do Caribe permanece calmo.

Dagô na escrivaninha em que nasceu 007

Sobre a escrivaninha não está mais a máquina Imperial, mas um retrato autografado do Comandante. Durante doze anos, sempre nos meses de janeiro e fevereiro, Fleming escreveu naquela mesinha de canto um livro de James Bond por ano. As palavras datilografadas no tampo daquela mesa geraram best-sellers internacionais, tiras de quadrinhos republicadas no mundo inteiro e uma indústria cinematográfica de 12 bilhões de dólares.

Nenhuma criação da cultura pop seria mais universal, lucrativa e duradoura. Germinaram mais de 50 romances, milhares de tiras de quadrinhos, 26 filmes (entre oficiais não oficiais), fora uma quantidade infinita de imitações. A saga continua – firme e forte – em 2012 com um novo filme (Skyfall) e um novo romance (Carte Blanche). E tudo isso começou naquela escrivaninha de canto.

A seguir: “O livro para acabar com todos os livros”

 


Matéria publicada originalmente na revista VIP. Dagomir Marquezi pode ser encontrado no endereço dagomir.blogspot.com.br.

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