“Ninguém entra e ninguém sai”: o fotógrafo brasileiro que cobriu os confrontos na Ucrânia fala ao DCM

KIEV - UCRÂNIA

 

Na Ucrânia, a trégua entre manifestantes e o governo de Viktor Yanukovich serviu apenas para recarga das energias de ambos os lados.

Mesmo com a anistia de 234 manifestantes, a capital Kiev retomou seu status de gerra. Combates sangrentos, com muitos manifestantes agora armados, estão resultando em dezenas de mortes. Órgãos de segurança ucranianos informaram que ao menos 1.500 armas de fogo pertencentes às forças policiais foram furtadas e encontram-se nas mãos dos manifestantes.

Apesar de obter a anistia pleiteada, os manifestantes querem a volta da antiga constituição que limitava os poderes do presidente e exigem a renúncia de Yanukovich. Operações anti-terrorismo estão em discussão para “restaurar a ordem” em todo o país, que está revivendo seus dias de luta pela independência da União Soviética em 1991.

O fotógrafo Felipe Paiva, que cobriu de maneira independente os protestos, falou com o DCM.

DCM – Qual a situação no momento?

Paiva – A praça Maidan permanece sendo o foco dos confrontos onde bombas explodem a cada minuto. Forças do exército tentam controlar a situação pela força, mas a resposta dos manifestantes também tem sido muito violenta.

O número de manifestantes parecia haver reduzido nos últimos dias. A resistência voltou com força após a trégua?

A polícia ganhou bastante terreno e agora as barricadas estão restritas somente à praça Maidan. As tropas invadiram as barricadas para tentar limpar a praça e os arredores. Como há menos neve e gelo, fica mais fácil quebrar o bloqueio. Por isso os combates se intensificaram.

O frio deve ser um inimigo poderoso…

Ficar fora de qualquer abrigo é torturante. A temperatura atingiu os 20 graus negativos. Mesmo usando 3 pares de meia meus pés começaram a congelar, doer e por fim parei de senti-los. Resolvi entrar na prefeitura para me aquecer. Por isso os prédios governamentais ocupados também são importantes. Além de abrigar do frio, servem de administração para o “novo governo”. Um dos prédios virou um centro de mídia. Existe sala para cadastramento de imprensa, sala para entrevistas e até assessoria da imprensa “rebelde”.

Houve alguma espécie de suspeita com relação à sua presença?

Existe a preocupação com infiltrados, tanto do governo quanto de mídias que costumam atacar o movimento. Uma estrutura de vigias e guardas fica de olho em todos que estão vivendo ou passando na região ocupada pelos manifestantes. Há também uma central de imprensa para registro de fotógrafos e jornalistas. Um fotógrafo independente, dependendo do país de origem, pode ser melhor ou pior tratado. Como brasileiro, fui muito bem tratado.

Fontes oficiais dão como 25 o total de mortes só ontem.

Uma mídia independente muito forte em termos de credibilidade diz que são 75 até agora… Mas esse número deve crescer.

Então os confrontos não estão restrito a Kiev?

Prédios públicos de outras províncias também estão sendo atacados e invadidos. O país está se mobilizando para ajudar os manifestantes na capital. Dois ônibus de Lviv (cidade a oeste) chegaram a Kiev pra dar suporte aos manifestantes, porém as rodovias para lá foram fechadas ontem à meia-noite. Agora, ninguém entra e ninguém sai da cidade.

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