Não vai dar em nada, mas pelo menos Alckmin vai ter de se explicar pelo perdão à Alstom. Por Mauro Donato

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Vislumbre o seguinte cenário, caro leitor:

A presidente Dilma Rousseff continua firme em sua cadeira no palácio da Alvorada; A Odebrecht permanece prestando serviços para a Petrobras normalmente, como se nada tivesse acontecido; E mais ainda, a Odebrecht é agraciada com um perdão milionário de algumas dívidas e ganha mais um tempo para entregar obras que, de resto, já estão atrasadas há cinco anos e com fortes denúncias de superfaturamento. O mundo viria abaixo, certo? Não haveriam panelas suficientes para dar conta da indignação verde e amarela. Iriam implorar por militares, por Sergio Moro, pela defesa da tradicional família brasileira.

Pois o quadro acima é real, bem real, quando substituímos personagens, locais e empresas participantes.

O governador Geraldo Alckmin, que continua firme em sua cadeira no palácio dos Bandeirantes, perdoou dívidas da Alstom que totalizam R$ 116 milhões. A empresa francesa, acusada de fazer parte de um cartel associado ao governo tucano de São Paulo desde 1998 (!), foi presentada ainda com a dilatação do prazo de entrega de um produto para o ano 2021. A contratação previa a conclusão e entrega para 2011. Já estamos com cinco anos de atraso e graças à benevolência tucana chegaremos a dez.

O cheiro da coisa toda fez o Ministério Público do Estado de São Paulo abrir investigação sobre o acordo. O promotor de Justiça Marcelo Milani não engoliu a tucanada: “Não vejo sentido nesse acordo. O Metrô aplicou multas no limite máximo à Alstom em decorrência do contrato. Como agora perdoa essas multas? Também não é razoável que um contrato essencial para o Metrô sofra um atraso de dez anos”, afirmou.

A Alstom é investigada desde 2008 por esquemas de propinas acertadas com os governos do PSDB que dirigem o estado de São Paulo. Ela obteve vantagens em contratos nas áreas de transporte e energia que vêm desde Mario Covas, passou por José Serra e chega em Alckmin. Mas oito anos depois do início das investigações, o que vemos é uma tramitação lenta e cheia de névoa.

O produto em questão, um sistema que visa diminuir o intervalo entre trens, foi contratado por José Serra em 2008 ao custo de R$ 780 milhões e proporcionará um prejuízo de R$ 300 mi devido ao novo acordo (perdão de multas e mais prazo). O governador Geraldo Alckmin não pode ser acusado de fazer com o metrô o mesmo que Dilma e Lula são acusados de fazer com a Petrobras porque?

Sob a gestão tucana, o metrô está financeiramente quebrado a ponto de abrir recentemente um plano de demissões voluntárias. Se está falido e dispensando funcionários, como anistia R$ 116 milhões em multas de um fornecedor?

Parece claro que foi mais um acordo para calar a boca da Alstom. Sim mais um, pois em outubro de 2015 o Ministério Público entrou com ação solicitando o ressarcimento de R$ 500 milhões pelos danos causados pelo cartel do metrô o que causou certo mal estar entre as partes que já tinham costurado um acordo mais barato em troca de não apontarem os agentes públicos beneficiados pelo propinoduto do trensalão. Para tucanos não existe delação e sim silêncio premiado.

E aqui vale mais um comparativo que confirma que, em se tratando de governos, pau que bate em Chico não bate em Francisco. Quando o assunto é Petrobras e o PT, as empresas fornecedoras e seus presidentes e diretores declaram-se extorquidos pela estatal. “Ou entrava no esquema ou o negócio não seria fechado.” Mas se a coisa envolve o PSDB, daí o governo é que foi vítima de empresas e empresários canalhas, corruptos, sujismundos aviltadores. Como já se tornou um mantra aqui no DCM: quem acredita nisso, acredita em tudo.

É devido a uma incestuosa relação entre governo, judiciário e grande mídia que as administrações tucanas não entram em colapso. Mesmo com o rombo à vista de todos.

 

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