Música, comida e casamento: Brasil é ‘moda’ no Japão

O texto abaixo foi publicado na bbc.

Casamento de Fuki e Yuuichi foi embalado pela bateria da Escola Alegria Independente de Hamamatsu
Casamento de Fuki e Yuuichi foi embalado pela bateria da Escola Alegria Independente de Hamamatsu

Os japoneses Fuki, 28, e Yuuichi Sahara, 36, trocaram recentemente alianças, num casamento que chamou a atenção dos convidados por causa do tema: samba.

Uma bateria de escola de samba, baianas, mestre-sala e passistas animaram a festa, realizada em frente a um shopping center, em um espaço público da cidade de Hamamatsu (Shizuoka).

“Foi um dia muito feliz e cheio de lembranças memoráveis, bem ao estilo brasileiro”, diz Fuki à BBC Brasil. O casal é apaixonado pela música brasileira e, por morarem numa cidade com grande concentração de brasileiros, contam que acabaram assimilando muito da nossa cultura.

“Tenho muitos amigos brasileiros e sempre gostei de ouvi-los contar sobre a cultura e a vida no Brasil”, diz a jovem, que sonha conhecer o país um dia.

Mas a euforia em torno do Brasil vai muito além de tema de casamento. Impulsionado pela Copa do Mundo, o país pode ser visto em produtos, eventos, comidas, programas especiais na tevê e até publicações especiais sobre o país.

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“Com certeza houve um aumento repentino de programas de TV que veiculam matérias sobre o Brasil, assim como aumento de produtos relacionados ao país”, confirma o jornalista Massato Asso, que já publicou livros e catálogos sobre o Brasil e atualmente pesquisa a cultura regional de cada estado brasileiro.

“O que acho interessante é que, em vez do futebol, o foco tem sido mesmo a culinária”, aponta o japonês, que tenta acompanhar a intensa programação de eventos relacionados ao Brasil.

Entre as recentes atividades com tema brasileiro, Asso destaca a sessão de autógrafos com o cartunista Mauricio de Sousa organizada pela loja de departamentos Isetan e o workshop de livros infantis no Museu Chihiro, que levou como convidado o ilustrador Roger Mello, ganhador do prêmio Andersen.

Ainda, nos Centros Culturais de Koto-ku (Tóquio) e de Kamakura (província de Kanagawa) foram ministradas palestras para mostrar a diversidade das cinco regiões brasileiras e também sobre a História do Brasil.

Os brasileiros que vivem no Japão também estão se contagiando com o boom verde-amarelo que tomou o país.

Quando duas redes famosas de restaurantes familiares anunciaram churrasco e feijoada no menu e uma rede de lanchonetes criou um lanche especial com tema da Copa, muitos brasileiros começaram a postar opiniões sobre o sabor na redes sociais.

“A comida é adaptada ao gosto do japonês, meio adocicado e sem o nosso tempero. Mas o mais impressionante é a quantidade de restaurantes locais, supermercados e até lojas de conveniência vendendo produtos com a marca Brasil, como guaraná e açaí”, diz a jornalista Hilda Handa, 47, que usa seu perfil no Facebook para descrever os produtos e comidas que vai experimentando.

Hilda lembra também que, na Copa de 2010, na África do Sul, não houve esse apelo comercial todo. “Para mim, isso tudo é fantástico”, comemora.

Osny Arashiro também se diz impressionado. Ele foi um dos convidados do casamento em ritmo de samba. “A noiva é mestre de bateria da Escola Alegria Independente de Hamamatsu e comandou a festa do próprio casamento, com apito e baqueta, por isso foi inusitado”, conta.
Ele lembra que, no passado, houve muita briga por causa das diferenças culturais entre os dois países.

“Mas tudo evolui. Hoje Hamamatsu não é mais como há dez, 15 anos, estamos melhor integrados, nossa cultura está mais divulgada”, diz o brasileiro. “Quem não procura aprender outras culturas, não vive em um mundo globalizado.”

A mídia também tem destacado o Brasil quase que diariamente. Programas de tevê, documentários, livros, revistas e especiais em jornais, o país nunca ganhou tantos holofotes da imprensa japonesa.

Mas o enfoque excessivo na violência no Brasil gerou revolta de alguns brasileiros que vivem no país. Rodrigo Gonçalves, 41, começou um protesto nas redes sociais. Ele tirou uma foto no local de trabalho segurando um cartaz onde escreveu: “Nihon (Japão), nós não somos bandidos”.

“Temos sido bombardeados com notícias ruins em relação aos brasileiros. Mas, no fundo, quem são realmente os bandidos?”, questiona, ao lembrar que japoneses também cometem crimes. “Além disso, bandidos são também os empresários que não cumprem as leis trabalhistas, o que é muito comum aqui nas fábricas do Japão e ninguém fala nada”, compara.

A ideia de fazer o cartaz surgiu depois que viu uma reportagem na tevê japonesa na qual ensinavam os turistas a se protegerem de roubos e furtos.

“Tenho visto muitos brasileiros criticando demasiadamente o nosso país. Então, esse protesto é na verdade para conscientizar os conterrâneos de que somos trabalhadores honestos e estamos aqui no Japão para viver dignamente”, defende.

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