#Meuamigosecreto virou revoltado online e crê no Cunha — e eu soube tarde demais. Por Kiko Nogueira

pixuleco

 

Meu amigo secreto é meu amigo há séculos, com as idas e vindas de uma relação longeva.

Meu amigo secreto, para minha surpresa, vibrou com a decisão de Cunha sobre o impeachment com as justificativas mais pixulecas possíveis. E eu pensei, naquela clássica impotência: o que houve? Como deixaram chegar a esse ponto? Por que ninguém fez nada? Com quem ele falava?

O impeachment vai resolver todos os problemas do meu amigo secreto — e do mundo, provavelmente, porque ele é um sujeito generoso. Até políticos como Tiririca, segundo ele, e outros palhaços que não têm diploma universitário serão defenestrados no processo.

Meu amigo secreto nunca teve fé em nada, mas crê numa espécie de profecia bíblica segundo a qual uma terra que mana leite e mel surgirá com o desaparecimento de Dilma Roussef.

Meu amigo secreto tem a convicção completa e irreversível de que esta é a pior crise econômica em todos os tempos e que com Temer, Cunha ou o general Custer tudo vai melhorar, sim, vai, ô se vai.

Eu pensei em enviar ao meu amigo secreto uma reportagem interessante da BBC Brasil com prognósticos de analistas internacionais sobre isso. Não que fosse adiantar, mas pensei.

(“Independentemente do resultado final, o processo paralisará o Legislativo brasileiro e vai impedir a análise da reforma fiscal, algo crucial para a recuperação econômica do país”, diz Angela Bouzanis, da Focus Economics, consultoria que analisa mais de 127 países.

“O Brasil está enfrentando a tempestade das tempestades”, diz Robert Ward, da Economist Intelligence Unit, que acredita que o afastamento de Dilma deve aprofundar a crise econômica.)

Meu amigo secreto tem um enorme talento em áreas específicas do conhecimento. Embora jamais tenha se interessado por política, descobriu, agora, que tudo está ligado a tudo e a corrupção jesus amado mensalão pé de pato mangalô três vezes.

Meu amigo secreto, enfim, se transformou num revoltado online. Foi sequestrado pelo ódio, pelo ressentimento, pela hérnia e, principalmente, pela burrice.

Meu pedido ao Papai Noel é que, neste Natal, dê paz, conforto e amor ao meu amigo secreto convertido ao revoltadismo. Que possa até continuar revoltado, mas que Santa Claus lhe conceda um pouco de discernimento.

O Bom Velhinho fará uma sessão de descarrego: “Sai, Marcello Reis, que esse corpo não lhe pertence”. Meu amigo secreto precisa dos amigos. Todos nós precisamos.

 

 

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