Meu primeiro esculacho. Por Paulo Nogueira

Em Londres a vida é mais calma
Em Londres a vida é mais calma

Espero um amigo na frente do Rascal do Villa Lobos para almoçar. Dou meu nome para a lista de espera, e tocam nas minhas costas.

Era uma mulher de uns 40 anos. Pensei que pudesse ser alguma amiga que eu não estava reconhecendo.

Mas o olhar de ódio mostrou logo que não.

Não a conhecia, mas ela me conhecia. Não trabalho em televisão. Como ela sabia quem eu era? Pelo DCM.

Para quem sempre trabalhou em revistas, como eu, é uma novidade ser reconhecido. Dias antes, numa padaria, um homem de uns 50 anos disse para mim: “Você é o Paulo Nogueira?” Confirmei. Seria um antigo amigo? Sorridente, ele tratou de esclarecer. “Sou leitor do DCM.” Antes de partir, ele acrescentou: “Olha. Concordo com tudo que você escreveu sobre o Ciro.”

Minha mulher ficou impressionada. “Caramba. Você acabou de postar aquele texto.” Verdade. Eu publicara o artigo minutos antes de ir para a padaria.

Mas ali no Villa Lobos a atmosfera era outra.

“Que vergonha, Paulo Nogueira! Defendendo esses ladrões. Que vergonha!”

Ia dizer que defendo apenas um ‘Brasil escandinavo’, igualitário, sem os extremos de riqueza e miséria que nos marcam. Luto por um Brasil sem favelas, por um país em que o filho do lixeiro frequente a mesma escola pública de alto nível que o filho de um magnata. Mas desisti. Seria inútil.

“Socialista você, hem? Camisa Lacoste e almoço no Ráscal. Que socialista você!” Imagino que seja uma leitora, ou vítima, da Veja. Lacostes, para ela, devem ser exclusividade para pessoas de sua classe, bem como almoços no Rascal e todas as chamadas coisas boas da vida.

“Deve estar rico de tanto ganhar dinheiro do governo.” Essa é fácil de responder. Todo o dinheiro que ganhei veio dos Civitas e dos Marinhos. Só que eu dei a eles muito mais do que recebi.

Mas não falei nada. Não me interessava esticar aquela conversa.

Em outras circunstâncias eu poderia ficar irritado. Mas não. Disse apenas: “Não vou discutir com uma analfabeta política.”

Ela: “O que? Tá me chamando de analfabeta?”

Eu: “Não. Tô chamando de analfabeta política.”

Ela resmungou alguma coisa que não ouvi, e virou as costas para retomar as compras.

Quanto a mim, meu amigo enfim chegou e fomos almoçar. Por alguns segundos pensei como a vida está perigosa na minha São Paulo. Reacionários se acham no direito de perturbar o sossego de um homem com ideias diferentes das deles.

Depois desfrutei, em plena paz, da delícia que é um almoço com um velho amigo.

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