Merkel x Thatcher

Frau Nein

 

Frau Nein, sobre quem escrevi um artigo para a próxima edição da Exame, é hoje a pessoa mais poderosa da Europa.

Como vocês todos sabem, Frau Nein é, em alemão, mais ou menos Madame Não. É assim que Angela Merkel, a chanceler alemã, 57 anos, casada duas vezes, ar de mãe complacente, formada em física, é chamada hoje entre os europeus.

Ela tem dito não a todos os pedidos feitos pelos outros líderes da Europa para que o dinheiro alemão – que não é pouco – salve o euro e os países – que também não são poucos – em apuros econômicos.

Ela tem medo de que, se fizer isso, não vai resolver o problema dos demais países. Vai, apenas, criar um para seu próprio país.

Quando os países gastam muito, como aconteceu com os vizinhos encrencados da Alemanha, isso produz inflação. Para a Alemanha, a inflação traz a memória dolorosa dos tempos em que ela destruiu a economia alemã na década de 1920 e ajudou Hitler a tomar o poder.

Em vez disso, o que Merkel quer é que os outros países se tornem parecidos com a Alemanha: contas em ordem,  produtos de alto nível como os carros sendo exportados, e assim por diante.

Merkel gostaria que se repetisse um fenômeno parecido com o que ocorreu na Alemanha quando caiu o muro, em 1989. Em vez de a Alemanha Ocidental se rebaixar ao nível da Alemanha Oriental, esta se elevou ao nível daquela.

É difícil não estabelecer um paralelo entre Merkel e Margaret Thatcher, a primeira dama britânica que virtualmente moldou o mundo à sua imagem na década de 1980 – um mundo que ruiria espetacularmente com a crise financeira global provocada pela ganância irresponsável dos grandes bancos americanos e europeus e seus executivos, ávidos por bônus multimilionários.

Merkel  sabe dizer a palavra mágica para fazer as coisas acontecerem: não. Nein. Nisso Thatcher era, como ela, mestra.

A diferença  está no tom. Thatcher dizia não belicosamente. Merkel diz não no tom delicado de uma mãe interessada em educar seu filho.

Dois estilos, duas eras, duas circunstâncias.

Mas.

Mas eu fico com Merkel, que adquiriu uma estatura mundial com a crise do euro. Se existe alguém com chance de salvar o euro e a economia européia como um todo, é ela, a Frau Nein.

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